segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

antologia pessoal.

Uma antologia de poemas meus. Há textos dos livros Réquiem (2012) e Constelário (2016), bem como um texto publicado na antologia É Que os Hussardos Chegam Hoje (2014) e outro na Revista Mallarmargens.


GRAU ZERO.


o bem-te-vi abre a garganta
e, se auto-intitulando, canta.

o ouvido modula tal frase
e supõe no canto um texto.

      o olvido, para outro eixo.
      para novo começo, o zero.

      muda o ouvido: tom por tom
      o bem - te - vi emite sons.

      o canto se desfaz, só som.
      o nome se esvai - ave, só.

            o pássaro, com só a voz,
            volta a entoar o som do om.

(de Réquiem, 2012)


PERU.

        nas escarpas da Velha Montanha
flashes ofuscam a luz do sol,
solas trazem detritos de países vários;
                a terra chã - solo – mal ainda é Peru.
                perpetuado, porém, é, ainda
                o sangue cristalizado em Cajamarca.

a cabeça rolada para chão já cristão,
        tal qual ouro sobre azul,
era, aqui, antes,
como o dente-de-leão
há para ser soprado.

                atahualpa, penso em ti.

(de Réquiem, 2012)


CEMITÉRIO MINEIRO (OURO PRETO).

quem caminha,              por aquela ladeira
                         à noite,
e pára,                   para um golpe de olhar noturno sobre a cidade,
           na amurada,
tem a visão puxada,              pelo branco fosco das campas achatadas
                              à direita,
que mal-dissimulam um adro à beira de um vão
                                                                             -
                                                                               desfiladeiro.

o que se diz é que o lugar é cemitério dos escravos de outrora.
longe dos batuques das senzalas ou das danças ativadas por chicotes,

porém,

o que o mirante ressoa é o silêncio agudo da noite
como o possível som que,        vibra dentro das pedras do calçamento.
                                     nulo,

(de Réquiem, 2012)


ANÃ BRANCA.















(de Réquiem, 2012)




CONCLAVE.


sujos de barro, os tênis, quantos! na Praça
de São Pedro; contra a fumaça, em nacos,
da chaminé romana, verbo encarnado: nós.
à Capela! que, só pedra, passível
de assédio. no altar, Jesus
fora da cruz! agora, no lugar, pregado,
um espantalho,
e bem na hora do pouso do espírito santo.


(da antologia É Que os Hussardos Chegam Hoje, 2014)



***


sequer o céu é sincero:

a estrela que cintila
não é a estrela que cintila,
visto que, na real,
imagem antiga.

o escuro que anoitece
não é o escuro que anoitece,
visto que, de onde vem,
já se fez brilho.

iria, eu, de volta,
fosse aceito,
a um céu do presente
em que uma estrela extrapolasse
ser mera brasa enganosa:
talvez, quem dera, farol
(visto que agora é lanterna traseira)
de um carro-tempo mais-que-perfeito.

(de Constelário, 2016)


***

à lâmina d’água, peixes a boiar,
palafitas à vista – sob cheiro intratável,
o da consciência das cidades:
o rio Tietê, o Yangtze, o Reno,
o Newtown, o Ganges, o Congo,
também o Marilao e o Citarum:
artérias à espera de angioplastia,
à espera, como os cabelos verdes,
arrancados pelo gado, pela soja,
pelo contrabando de troncos,
pelo projeto progressista que,
no pecado Capital da gula de Gargântua,
diz não poder parar:
dita flor que, se for, só se do Jardim Gramacho.

no que aviões furam a cúpula de nuvens,
calota poluída sob a qual,
                                         ruído,
         gases de automóveis ascendem,
paradigma para os graus centígrados:
escalpelado de seus polos, o planeta,
nave abafada, a nos cobrar o óbolo.

(de Constelário, 2016)


***

eu, a La Lucien, na corte aos astros
literários, de fato, dizem,
são os poucos que se fixam,
perenes, na cúpula de cristal;
por vezes, entre tais mestres, no firmamento,
um cometa itinerante, um texto em jornal
a cada cinco anos,
concessão da confraria celeste,
no fim, só aberta
aos de coluna vertebral bastante flexível;

no barco furado das ilusões perdidas,
sob o pulsar dos dentes do céu de escárnio,
caninos por triturar os cosmonautas,
o fosco brilho final, submarino, a se ver:
houvesse esperança,
talvez fosse Absinto a cariar o constelário,
mas não:
a estrela abissal dos últimos dias da assassina fome.

(de Constelário, 2016)


***

F _ _ _ _ _

num jogo de forca com o espaço
formo caracteres ao ligar estrelas.
vasto, o céu, mas é tanto que erro,
que se vão as chances pelo constelário,
e ao me envolver nas letras do teu nome,
teia de tarântula que ataranta,
se apronta a corda, se prepara o laço,
a ponto de, quando menos espero,
furado, meu papo de amor liberado,
se gerarruínar uma quase esperança,
que me embarga a voz, que me consome,
conforme me rouba o chão, como ao enforcado.

(de Constelário, 2016)


O POETA HART CRANE DESAPARECE NO MAR.

sob sol a pino, o vento – não o tempestuoso,
cinzel de Deus que rescinde a carne do osso,
mas o burocrático, olho cerrado de furacão –
a descamar a safira por onde deslizava o Orizaba,
comboio marítimo – teu último – há pouco deixara o México
e, com ele, tua esperança–crackeada, a América–de um outro povo,
a teus olhos,encanto– os jovens por cujas carnes viaja o sangue asteca,
seus traços – maneiras – coxas – inexistente lanugem –
tanto quanto as listras dos marinheiros na tua cama,
transversais às outras – de ferro – contra as quais te jogaram,
por vezes, até a manhã arrefecer tua raiva e teu porre,
bem o teu estado naquele então, esvaziadas duas garrafas de gin,
contenda armada com a única mulher da tua vida, também a bordo,
e tantos revezes – inclusive naquilo a que devotou tua vida,
a escritura – que deram, frente a olhos incrédulos,
no teu salto mortal, e logo o mar,
voraz, não se sabe se alguma corrente –
distensão muscular – dente de tubarão; no mais,
lenda – pra mim, na certa, tua descida a Atlântida,
agigantamento e, mais que teu olhar tétrico de afogado,
à mão, feito harpa, sob teu dedilhar cujo presto – néon dos twenties,
cintilância em vibração – se irmana aos fluxos marítimos,
chegando às costas, aos ouvidos, às cidades, esplêndido
fracasso, os cabos da Ponte do Brooklyn.

(publicado na Revista Mallarmargens, 2016)

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

prometheus. [tradução]


(Ezra Pound / de A Lume Spento, 1908)

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(2016)

terça-feira, 12 de julho de 2016

a conciliation. [tradução]


(Jerome Rothenberg / de White Sun Black Sun, 1960)

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(2016)

* Optei por traduzir "hold" como "portar" pelo fato de este verbo da língua portuguesa apresentar dois sentidos: o de "carregar consigo" e o de "possuir"; duplicidade, essa, que o verbo em inglês também oferece. 
* Como no original não há rima entre os dois primeiros versos da penúltima estrofe, evitei o uso de "você", pois tal termo rimaria com "quê". Em vez disso, lancei mão da palavra "contigo", que não deixa de ser um resgate da forma "tu", muitas vezes eclipsada pelo suposto padrão brasileiro "você".

quinta-feira, 28 de abril de 2016

the grave of shelley. [tradução]


(Oscar Wilde / de Poems, 1881)

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(2016)

* Em 1877, Oscar Wilde visitou, no cemitério protestante de Roma, o túmulo do poeta romântico inglês Percy Bysshe Shelley (1792 - 1822).  O poema aqui traduzido surgiu de tal visita, sendo que os versos finais aludem à morte do poeta por afogamento.
* Por uma questão de rima (toante), optei por traduzir "gloom", cujo significado gira em torno da idéia de "escuridão", como "brumas", termo que alude à impossibilidade de visão e, ao mesmo tempo, ao sublime romântico (caro a Shelley), se pensarmos, por exemplo, em Caminhante sobre Mar de Névoa (1818), quadro célebre de Caspar David Friedrich.

sábado, 13 de fevereiro de 2016

hello. [tradução]


(Robert Creeley / de Hello: A Journal, February 29 - May 3, 1976)

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(2016)

* Três poemas pertencentes ao livro Hello: A Journal, de 1976, obra em que Creeley trabalha esteticamente suas experiências de viagem por nove países: Nova Zelândia, Austrália, Cingapura, Filipinas, Malásia, Hong Kong, Japão, Coréia e, na volta, Estados Unidos. Window foi escrito pensando Sidney, na Austrália. Remember, pensando Hong Kong. Out Window: Taylor's Mistake, por sua vez, se refere a uma localidade neozelandesa chamada Taylor's Mistake, nome advindo do suposto erro de um navegante que confundiu o local com outra paragem. 
* Em relação à tradução, em Janela optei pela expressão "por / dentro, avesso" em vez de "den- / tro, fora", pois a expressão "inside out" expressa algo virado pelo avesso. Já em Lembrar, optei pelo adjetivo "cerrados" para tentar dar conta da ambiguidade de "close", que pode ser lido como "fechados" ou como "próximos". A palavra "cerrados" me parece dar conta de ambos os sentidos, já que pode se referir a algo de fato fechado ou, conforme o Houaiss, a  algo "cujos constituintes são numerosos e próximos entre si". Na segunda estrofe, tentando encarar a semântica movediça, típica de Creeley, optei por "pensar", pois tal vocábulo pode ser encarado como verbo ou como substantivo (o pensar), o que daria conta da ambiguidade de "mind" (a mente antes de acordar ou antes de acordar, repare?).

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

in Just- [tradução]


(E.E. Cummings / de Tulips & Chimneys, 1923)

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(2014 - 2015)

* Uma das chansons innocentes não tão inocentes do livro Tulips & Chimneys. Aparentemente trata de uma cena de primavera: o vendedor de balões, a umidade, as crianças entusiasmadas. Há, no entanto, outro significado, criptografado, que sugere o baloeiro como alguém sexualizado, que começa ingênuo ("baloeirinho"), passa pela excentricidade e chega a ter "pés de bode", alusão a Pã, que, se não assobiava, tocava flauta e perseguia as ninfas em busca de diversão. Nesse contexto, a  "molhavilhosa" primavera parece ser um período de fertilidade e de maturação.
* Optei por traduzir "ballonman" como "baloeiro", pois me pareceu mais econômico que "vendedor de balões", além de (segundo o Houaiss) nomear não apenas quem mexe com balões, mas também um "indivíduo mentiroso", o que parece dar conta da faceta oculta da personagem em questão. Criei, também, duas palavras-valise que me pareceram se aproximar do efeito estético das originais: "elamelado" para "mud-luscious" e "molhavilhoso" para "puddle-wonderful". Em relação ao estribilho, mantive uma sequência de sons em "i", na tentativa de recriar a sonoridade do original "wee", que remete ao próprio som do assobio.
* Há uma gravação do poema feita pelo próprio autor.
* Alguns excertos críticos sobre o poema.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

"Outro", de Augusto de Campos.

Vem à mente durante a leitura de Outro, novo livro de poemas de Augusto de Campos, a persistência do autor em confeccionar textos que não sejam apenas "conteúdo", "assunto", "tema", mas sim formas poéticas que problematizem em suas organizações internas, em seus ritmos, os "assuntos" em questão.
A obra já apresenta uma problematização formal desde a capa (de autoria do próprio Augusto), que consiste em um fundo verde sobre o qual estão, em laranja-avermelhado, o nome do autor e uma espécie de ideograma com o nome do livro. De acordo com estudiosos da teoria das cores, o contraste existente entre cores complementares, como é o caso do verde e do vermelho, é o mais intenso, o que gera uma vibração. Donis A. Dondis, por exemplo, baseado em Munsell, explica que: "a cor complementar se situa no extremo oposto do círculo cromático. (...) ao serem justapostas, as complementares fazem com que cada uma delas chegue a uma intensidade máxima". [1] Esta justaposição causa um embaralhamento visual que, na obra de Augusto, já havia sido explorado em Poetamenos (1953), no poema aqui, do livro Não (2003), e na edição colorida dos Profilogramas (2011). Tal preocupação parece fazer parte de um projeto de aguçamento (ou educação, se lembrarmos de Haroldo de Campos) dos sentidos, de um lembrete de que a poesia é, também, um fenômeno sensorial. 
A obra de Augusto tem lidado, nesses quase 65 anos de existência, não apenas com a visão, mas também com a audição, como atesta seu trabalho de musicalizações com Cid Campos, com Adriana Calcanhoto e com compositores eruditos, e com o tato, como atestam os Poemóbiles (1974) e o poema em braille anticéu, de Despoesia (1994).
No caso de Outro, o sentido mais abordado é a visão. Em uma das intraduções presentes no livro, odi et amo (catulo), o autor mistura as letras das palavras "odeio" e "amo", mas as colore justamente com cores complementares; mais uma vez, o verde e o vermelho, o que causa uma tensão visual bastante significativa para o poema, que trata da linha tênue e conturbada entre ódio e amor. Em outros poemas, há o uso de tipos cifrados que exigem uma leitura atenta, que vá na contramão daquela usada para textos-patinação-no-gelo, contra os quais a obra de Augusto sempre se opôs, embora, em algumas situações, o autor tenha feito textos que não parecem exigir do leitor nada muito além do próprio deciframento dos códigos tipográficos.
No mais, Outro - que pode ser lido como o contrário de Intro -  é um livro imbuído do tom de despedida, espero que apenas performática, pois a encenação da morte e do silenciamento, remontando pelo menos aos poemas morituro (1994) e tour (1999), é outra recorrência na obra do autor. Que o poeta-tradutor-ensaísta continue nos brindando com sua lucidez! VIVA AUGUSTO!



desumano


cansaço dos metais


maiakóvski - brinde


tvgrama 4 erratum


odi et amo (catulo)





[1] DONDIS, Donis A. 1991. Sintaxe da Linguagem Visual. Martins Fontes. São Paulo. p.125.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"agora aqui ninguém precisa de si", de Arnaldo Antunes

Em seu novo livro, agora aqui ninguém precisa de si (Cia das Letras), Arnaldo Antunes mantém, no trato com as palavras, seu rigor característico, apresentando ao leitor textos bem lapidados, mas que não se limitam à precisão verbal, à transmissão de um raciocínio de forma econômica, enxuta, como faz certa diluição da poesia construtivista. Em seus melhores momentos, o novo trabalho consegue um dos feitos que considero mais interessantes em escritura poético-literária: fazer o leitor desconfiar da escrita, criando tensão entre o que é dito (enunciado) e a forma de dizer (enunciação). Um bom exemplo é o primeiro poema da obra, que enuncia: nada / com um vidro na frente / já é alguma coisa (...) mas / não é nadaA ambiguidade está entre aquilo apresentado pelas primeiras partes do poema não ser nada digno de atenção ou o conceito de não, de negatividade,  ser, de fato, uma inexistência. Essa problematização do conceito de nada, de esvaziamento ou esquecimento, sugerida pelo próprio título, é o que orienta o livro, como atestam vários momentos: sonha sumir / um dia / em uma sala / vazia (p.17) ;  queria estar a sós comigo mesmo / e ter a eternidade toda em torno / desfalecer no fogo desse forno / até me desfazer como um torresmo (p.47); não sei / se não / sei ou / se não / sei que / sei / mas / esque / cerei (p.121). Recorrentes, também, são as imagens dos elementos como o vento, a água e o ar, que trazem em si essa intangibilidade ou transitoriedade. 
O curioso é que apesar de enunciarem esse apagamento do eu, os textos se mantêm totalmente coerentes com o estilo da persona autoral de trabalhos anteriores de Arnaldo Antunes: poemas breves, tratamento direto do assunto, registro caligráfico e exploração de diferentes recursos tipográficos. Eis, então, o contraste entre o que é enunciado e a forma de enunciar, o que gera uma espécie de contradição performática que encena a angústia da impossibilidade de se livrar do eu, de escapar de si próprio. Há pelo menos um trecho explícito do livro que dá lastro a essa interpretação, pois fura o discurso do apagamento, quase como se fosse uma "recaída", uma volta ao império da individualidade: espelho : meu colostro (p.25). Machadianamente, o espelho, aqui, nutre o indivíduo ao mesmo tempo que retroalimenta as contradições da obra, que consegue, enfim, dar conta esteticamente do tema em questão: a inquietude de lidar consigo mesmo, traço da condição humana. 
Bom livro. Ficam três poemas.

nada
com um vidro na frente
já é alguma coisa

nada
com um vento batendo
já é alguma coisa

nada
com o tempo passando
já é alguma coisa

mas
não é nada

***

                              algures
                              vênus
                                                                                               
                                                                   alhures
                                                                   sírus

mas aqui

neste
depois

agulha                  alguma

fura

o céu
de CO²

***

um sopro
é o que dura, o que pode durar
esse ins
tanto tempo se passou e ag
hora dia minuto
um sopro,
um tsu
many days without y
ou
um soco
de ar no st
ar de uma est
rela no esp
aço ou no est
âmago ai
nda sem você
eu pass

domingo, 2 de agosto de 2015

"Escuta", de Eucanaã Ferraz

Depois de Livro Primeiro (1990), Martelo (1997), Desassombro (2002), Rua do Mundo (2004), Cinemateca (2008) e Sentimental (2012), o professor e escritor carioca Eucanaã Ferraz apresenta Escuta, seu novo livro publicado pela Cia das Letras. 
Como sugere o título, a obra assume uma perspectiva de "audição total". Tudo é considerado, como afirma o primeiro poema, que aparece em uma orelha-introdução: "Estão certas todas as canções banais letras convencionais / seus corações como são de praxe; (...) os sonetos mal alinhavados / toscos estão certos bem como as confissões íntimas / não lapidadas nem polidas (...) e se o verso é trivial é o mais sagaz quanto mais pueril / mais seguro quanto mais frouxo mais sólido quanto mais rasteiro (...)". Este tom inclusivo, recorrente em outras partes do livro, parece querer legitimar a banalidade, talvez por reconhecer que essas manifestações consideradas banais - o verso trivial, a canção ruim, a confissão derramada - são elementos que formam a sensibilidade de grande parte das pessoas, e negá-los seria negar as próprias pessoas.  Não parece possível saber, no entanto, se o propósito foi ou não esta legitimação, pois o que a escritura sugere é que Eucanaã, no seu abraço benevolente, apenas saúda as possibilidades que as tais "trivialidades" oferecem à criação poética, sem chegar a vivificar na forma de seus textos uma incorporação crítica dos clichês em questão, o que pode aproximá-lo da apologia àquilo que mais preza os clichês e as trivialidades, por serem facilmente assimiláveis e vendáveis: a indústria cultural.
Há, é verdade, alguns momentos em que o autor ensaia uma certa contradição, como por exemplo quando diz que é preciso ouvir confissões íntimas pois "dizem não vai dar certo", o que sugere que até o registro mais rasteiro pode trazer em si uma evidência do desconcerto do mundo, mas tal ideia é enunciada de forma pálida demais para ser considerada como uma contradição performática de caráter irônico.
Após essa introdução, há as três partes principais do livro: Ruim, que versa sobre morte, guerras e tédio; Alegria, uma abordagem do júbilo do amor; e Memórias Póstumas, a respeito da morte do amor.
Da seção Ruim, destaco o primeiro poema, que nos lembra A Name for All, de Hart Crane (traduzido aqui), pois apresenta um pensamento esteticamente bem construído (apesar de assumir um tom de excessiva liberdade descompromissada) a respeito da angústia do nome, esta "placa" que nos identifica: "Queria viver sem nome, / ser o que sou: eu-ninguém. / Me chamarem - ei, você! - / e eu me reconheceria, / perfeitamente não sendo / senão uma coisa livre / do que jamais prometi."
As outras duas partes alternam tentativas de cristalização de beleza e o uso de narratividades ou descrições desinteressantes, como "Ninguém quer casar com dona Baratinha. / Mas ela quer amor. / Ela quer amar", reforçando a suspeita de que Escuta, apesar de alguns momentos mais bem realizados, não consegue dar vida a formas que problematizem - de forma enriquecedora para o leitor - os assuntos abordados por seus textos.

ESTA PLACA

Como se eu mesmo dissesse,
como se eu próprio afirmasse
(começa com eu, meu nome)
que sou o que me nomeia:

lugar de não ser ainda,
solo tão só prometido,
projeto de geografia
para depois de amanhã.

Meu nome não sou agora,
moro no mundo futuro.
Meu pai me deu esse nome
sem que eu pudesse fazê-lo.

Mal posso escrevê-lo certo
nos documentos que o pedem.
Não existo no meu nome,
coisa que vive sem mim.

Ele se diz sendo eu,
este nome que me afirma,
mas o que nele me aponta
é também o que me acusa

de não ser o que ele diz.
Queria viver sem nome,
ser o que sou: eu-ninguém.
Me chamarem - ei, você! -

e eu me reconheceria,
perfeitamente não sendo
senão uma coisa livre
do que jamais prometi.

Mas à cara está colada
(certas tintas não se apagam)
esta placa, este engano
à beira de mim-estrada.

Se terra, sou terra a terra,
o agora sem vaticínios
de um norte em que mel e leite
jorrassem fáceis, sem dor.

Só existo em chão estreito,
nuns versos de amor e morte,
palavras ditas no escuro,
fósforo, poço, você.

Sou o exilado do nome
que carrego, vice-versa,
sem ter nunca visto a pátria
que minto quanto me digo

toda vez em que respondo:
como é que você se chama?
Vou aos livros, não encontro.
Pergunto. Não está no atlas.

E o infinito infinito.

A terra estará cumprida
quando estiver concluída.

Então, morarei ali,
sob ela, dentro dela,

sem ser eu, sem eu, não ser.

terça-feira, 14 de julho de 2015

"Desperdiçando Rima", de Karina Buhr

Baiana criada em Recife, Karina Buhr (1974) é uma  artista múltipla. Como atriz, trabalhou na montagem de Os Sertões, no Teatro Oficina. Como cantora e compositora, lançou Eu Menti Pra Você (2010) e Longe de Onde (2011), álbuns com canções aparentemente despretensiosas mas interessantes, pois furam o véu de mesmice, como Eu Menti Pra VocêNão Me Ame Tanto, que, sob musicalidade leve, debocham do amor "sério" e dos jorros sentimentalóides que persistem em muitas letras de canções e também na poesia contemporânea, estrada que Karina começou a trilhar com seu Desperdiçando Rima, publicado agora em 2015 pelo selo Fábrica 231.
O prefácio do livro afirma: "Nessas páginas que vão começar logo mais tem umas coisas diversas, coisas que, a princípio, não são músicas, mas depois de começado o samba, que elas virem o que quiserem, ou fiquem quietas aqui, esperando algum suspiro de alguém que passe por elas." Ao longo da obra, textos de diversos formatos e temas, caracterizando um exercício de liberdade escritural ao qual se somam desenhos da própria autora, quase todos de mulheres. Trata-se de uma prática de excesso, como o próprio nome sugere; excesso, esse, que, no abraço generoso do aceite de quase tudo que vem, acaba incorporando momentos pouco interessantes, como  Todo dia de manhã / um pouquinho de ilusão / um pouquinho de café, ou como os textos iniciais da obra, mais cronísticos, que, apesar de flertarem com experimentos "harmônicos" da poesia (uma palavra puxando a outra através da sonoridade, por exemplo) não se aprofundam na busca de um ritmo que proporcione ao leitor uma reflexão mais elaborada; acabam apenas por elencar acontecimentos, assuntos, sem problematizá-los na forma.
Por outro lado, Karina apresenta outros momentos textuais  mais relevantes, principalmente quando aborda questões sociais como a da violência policial, a da demarcação de terras indígenas ou a da necessidade de combate ao machismo. Em alguns casos, aproveita o clichê para criar uma ambiguidade que chega a nos afiar o pensamento, como no poema Você Me Feriu:  Na delegacia nada a registrar / nenhum arranhão, nenhuma roncha no corpo. / O arranhão e o soco foram dentro. Se por um lado o texto parece uma lamentação amorosa banal, por outro pode ser encarado como o impasse de uma mulher que sofreu assédio moral, algo difícil de se provar em uma possível acusação contra quem a agrediu, o que pode levá-la ao silêncio ou à interpretação de que tudo foi apenas um "desentendimento sentimental".
Apesar de irregular, Desperdiçando Rima traz um pouco mais das reflexões de Karina Buhr, artista que, por conta de suas canções afinadas com nosso tempo e de seu posicionamento político progressista, já merece respeito. Ficam alguns textos que creio merecerem leitura.


A marca que o caminho deixa, aquela que é devagar, de pedra e terra também,
de sangue e choro gritado, que deixa surdo de tão alto.
E a terra do índio espera que demarquem ela.
Mas antes era só ela.
"Terra do índio" era pleonasmo.




ESTADOS
ZUNIDOS
JAMAIS SERÃO VENCIDOS

*

(...)
Revive quem vive manso, quem vive de penso dança no prazo.
Cenário surreal de lombra de asfalto, que quando não vê natureza de
jeito pensa que é tudo alegria e beleza.

Realeza zero essa ganância bruta, que mesmo com luta avança,
pé na cara, chute no ovo,
Cabou-se a esperança.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Ademir Assunção, Cara e Coroa.

Em Junho, o poeta, prosador e letrista Ademir Assunção lançou dois livros pela Editora Patuá: Pig Brother e Até Nenhum Lugar. Dois projetos distintos, duas faces do mesmo criador. 
O primeiro, evidente alusão à mediocridade televisiva que tem imperado nesse começo de XXI, apresenta um mosaico de textos interindependentes organizados em sete círculos e carregados de imagens agudas, geralmente envolvendo a cidade de São Paulo, o que nos remete a Paranóia, de Roberto Piva (1963), e, mais indiretamente, a Paulicéia Desvairada (1922), de Mário de Andrade. Os cenários caóticos engendrados por Ademir, apesar de aparecerem num ritmo sintático linear que não acompanha a voragem das cenas (talvez numa emulação crítica da previsibilidade dessa nossa era da imagem),  fisgam o leitor  com sua força imagética, que vale a leitura, já que consiste em bons achados, como a lua é um comprimido de ecstasy se dissolvendo na neblina, caubóis do agronegócio massacram pederastas / & rastafáris / em safáris noturnos  ou  policiais armados bloqueiam as portas do reino do Céu, todos registros que nos ajudam a pensar criticamente o panorama dantesco desses nossos dias de violência e banalidade.
O segundo livro, por sua vez, retomando a economia verbal de LSD Nô (1994), apresenta haicais e quase-haicais. Parte dos poemas está imbuída do espírito Zen, que, entre outras coisas, postula a relevância de cada um  dos elementos do universo. Nesse sentido, temos um poeta de olhar apurado, que vê, por exemplo, o detalhe do  sol dissolvendo o orvalho nas asas da borboleta. Outra parte dos poemas busca um ar de informalidade, como é o caso de dia confuso / me falta / um parafuso ou de bem que você podia / pintar na sala / da minha tarde vazia; na minha opinião, textos menos interessantes, mas não desqualificam a obra, que, assim como a outra face da moeda, Pig Brother, merece ser lida, pois é um momento escritural de um artista que tem se dedicado com seriedade à criação literária.
A seguir, três poemas retirados dos livros.

A PORTA ENTRE OS MUROS ESTÁ LACRADA

As portas se fecham e não se abrem mais nesse mundo.
Seres da neblina uivam no topo das montanhas.
Raposas dançam em meio à névoa azulada.
Limo nos telhados, limo nas almas.

O Trapaceiro Divino levanta a taça.
O Dançarino Mascarado levanta a taça.
Mas nada abre a passagem entre os mundos.

Dois anjos sinistros seguram o crânio
de uma caveira de burro
nos portais da cidade.
Uma lésbica surtada arrebenta o taco de bilhar
na cabeça da própria irmã.
A velha hippie enrola um baseado no fundo do bar.

Ouvindo o crepitar da lenha na lareira,
Mister Morfina fuma o último cigarro
e vai dormir pensando num caldo verde.

A cúpula de madeira do céu começa a rachar.

(de Pig Brother)


manhã
fria
de outono

o sol
dissolve
o orvalho

nas asas
da borboleta



***


tanto caminhar
tantas luas tantos sóis
até nenhum lugar



(de Até Nenhum Lugar)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

african images. [tradução]


(Alice Walker / de Her Blue Body Everything We Know, 1991)

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(2015)

* A autora de The Color Purple, livro adaptado para o cinema por Steven Spielberg, Alice Walker também é poeta. Os poemetos aqui traduzidos fazem parte do livro Her Blue Body Everything We Know, que reúne textos que não tinham ingressado em seus volumes de poesia anteriores (Once - 1968 , Revolutionary Petunias and Other Poems - 1973 , Good Night, Willie Lee, I'll See You In the Morning - 1979 e Horses Make a Landscape Look More Beautiful - 1985)
** Esses textos fazem parte da seção inicial do livro, chamada African Images, Glimpses from a Tiger's Back, e são registros de uma viagem que a autora fez à África oriental em 1965. O alumbramento frente à Natureza aparece conjugado com a reflexão a respeito de questões culturais problemáticas, como a matança de elefantes e rinocerontes, e de problemas sociais, como as doenças que afligem as populações locais. Tudo através da síntese em quase-haicais que sugerem sem concluir, como bem exemplifica o poema do rinoceronte morto: quem são as indígenas? Terão matado o animal? Com que intuito?

  
pata de elefante usada para armazenar objetos

segunda-feira, 20 de abril de 2015

royal palm. [tradução]


(Hart Crane / de Key West: an Island Sheaf, 1932)

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(2014)

*Composto e publicado em 1927, Royal Palm, que optei por traduzir como palmeira imperial – forma que soa mais comum no português – se revela um símbolo de resistência às intempéries da natureza e, quem sabe, uma referência críptica ao potencial duradouro do trabalho poético.
Tentei, ao longo da tradução, manter uma constante de doze sílabas por verso, com exceção da terceira estrofe, que apresenta  extensão maior em dois dos versos, mas tenta compensar com a menor extensão de outros dois. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

epigram on parting with a kind host in the highlands. [tradução]


(Robert Burns / 1787)

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(2015)

* Poeta escocês, Robert Burns criou várias canções (algumas, composições próprias; outras, adições a temas folclóricos), entre elas Auld Lang Syne e Ae Fond Kiss, ainda cantadas e gravadas nos dias de hoje. Nesse breve epigrama, Burns trata da hospitalidade das Terras Altas, região no norte do país, repleta de montanhas e com pouca densidade demográfica. Trata-se da única área da Escócia em que ainda hoje se fala dialeto escocês.
** A tradução buscou, dentro do possível, manter o ritmo métrico original (sendo necessário levar em consideração os acentos secundários das palavras). O phrasal verb do título - part with - tem um sentido um pouco diferente da tradução dada; trata-se de expressar que algo foi "deixado de lado". Optei pelo verbo "despedir" por soar mais natural em português.



Terras Altas 

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

my voice. [tradução]


(Oscar Wilde / de Poems, 1881)

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(2014 - 2016)

* Mais conhecido por sua obra em prosa e por seu teatro, o irlandês Oscar Wilde (1854 - 1900) também se dedicou à lida com o verso. A maior parte de sua produção poética está reunida em Poems, de 1881, e trata, entre outros assuntos, de impressões de viagem e revisitações a temas clássicos. Sua poesia está imbuída de temas relativos à visão "dândi" do mundo, aquela a qual dedicou sua vida de forma intensa, a ponto de ser mandado para a cadeia e para o trabalho forçado por cometer atos considerados "imorais" com vários rapazes. O poema aqui traduzido me parece representar bem a voragem de emoções, sofrimentos e superficialidades de uma experiência "dândi". 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

the rosa sanguinea. [tradução]


(Henry Thoreau - 1850's)

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(2014)

* Henry Thoreau ficou famoso por seu ensaio A Desobediência Civil (1849) e por sua ligação com o  transcendentalismo americano, linha filosófica que teve como um dos maiores expoentes Ralph Waldo Emerson e que pregava, entre outras coisas, a valorização da intuição, da vida solitária, dos ambientes rurais e de uma educação não oficial. No entanto, também foi poeta. Os críticos de seu tempo não valorizaram seus textos poéticos, assim como ele próprio, que quase chegou a destruir seus manuscritos. Há, no entanto, momentos interessantes, como essa rosa sanguínea, aqui traduzida. O texto não tem data, mas a edição de 1965 de seus poemas, publicada pela The John Hopkins Press, informa que Walter Harding, estudioso que encontrou esse poema entre os manuscritos de Thoreau, crê, por conta da análise caligráfica, que o texto tenha sido escrito em meados da década de 1850.
** Procurei manter o ritmo regular, mas tive que mudar a posição das rimas para obter um efeito que estivesse à altura do original.

sábado, 16 de agosto de 2014

song. [tradução]


(Robert Creeley / de Windows, 1990)

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(2014)

* Tentei, na tradução, manter a leve atmosfera ambígua. Na primeira estrofe, por exemplo, deixou-se de lado o corpo esquecido ou algo que “há” nele? Na segunda estrofe, aquilo pelo que se morreria é o corpo ou algo que “há” nele? Há uma tradução deste poema no livro A Um , que apresenta traduções de textos de Creeley feitas por Régis Bonvicino. 

nature morte. [tradução]


(Robert Creeley / de Windows, 1990)

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(2014)

* Pensei, inicialmente, em traduzir o título francês para o inglês, para manter o potencial semântico de "still life", termo que se refere ao conceito de "natureza morta" mas que também indica, no poema, que a vida ainda (still) continua. Concluí, no entanto, que optar pelo termo inglês não seria uma solução tradutória, e decidi manter o termo francês, que qualquer leitor de língua portuguesa consegue compreender.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

the air plant. [tradução]


(Hart Crane / de Key West: an Island Sheaf, 1932)

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(2014)

* Composto em 1927, este poema chegou a ser publicado no ano seguinte. Trata-se de um registro da força devastadora dos furacões tropicais. Em 1926, Crane esteve em Isla de Pinos (atual Isla de la Juventud), em Cuba, e presenciou um destes desastres naturais.
Há uma tradução deste poema  em  Poesia da Recusa, de Augusto de Campos. Em relação ao número de sílabas poéticas, Augusto varia entre 10 e 13. No meu caso, mantive os versos com 10 ou 12 sílabas poéticas. O primeiro desafio tradutório foi o terceiro verso – “thrust parching from a palm-bole hard by the cove –”, que, por economia silábica, teve sua ideia inicial – a de o tufo ser “empurrado” ou “impelido” de forma “abrasadora” pelo tronco – condensada no adjetivo “chamejado”.
Em relação à terceira estrofe, considerei a opção de Augusto por “acúleos” demasiadamente técnica, portanto traduzi “hack-saws” como “serrotes”.


A solução de Augusto para o final do poema é muito boa, mas optei por dar ênfase à palavra “hurricane”, mantendo-a como última palavra do poema, o que me levou a um caminho diferente do seguido em Poesia da Recusa. Vale reiterar que “Spanish Main” se refere à costa caribenha colonizada pela Espanha.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

japanese prints. [tradução]










(John Gould Fletcher / de Japanese Prints, 1918)

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(2014)

* Poeta ligado ao Imagismo, John Gould Fletcher buscou, nesses Japanese Prints, produzir em língua inglesa os chamados hokkus (transliteração da palavra japonesa, que em português adquiriu a grafia "haikai" e, após a queda do K na reforma ortográfica de 1943, "haicai"). Os haicais tradicionais adotam um esquema de três versos com 5 - 7 - 5 sílabas, respectivamente, e possuem ao menos uma palavra que aluda a uma estação do ano. No caso de Fletcher, a forma japonesa foi flexibilizada, assim como ocorreu no Brasil, com o trabalho de Paulo Leminski e Alice Ruiz. Na introdução ao livro, o autor diz que "não se pode escrever bons haicais em inglês. O que temos de seguir não é a forma, mas o espírito". Nessa tentativa, diz que os seus poemas "compartilham ao menos uma característica com a poesia japonesa, que é exaltar os assuntos mais triviais através da significação universal dos trabalhos artísticos".

** Sobre as traduções: eu e Lucas Zaparolli de Augustini traduzimos os 66 poemas do livro. Apresentamos, aqui, 8 traduções. Em "uma mulher bela", optamos por "anseio" em vez de "desejo", pois "ansiar" implica certa angústia, diferente do "desejo", que em alguns casos pode ser concretizado assim que surge, sem aflição. Já em "as poetas celestiais", o termo "close around" foi traduzido como "se fecham", opção que me pareceu mais próxima do sentido original, que é aproximadamente a ideia de "cercar". Em "as nuvens" há o phrasal verb "dragging up", que se refere a falar sobre algo desagradável que ocorreu no passado; optamos por "evocar", que mantém a ideia de trazer algo à tona.

*** há edição ilustrada oferecida pelo Projeto Gutenberg. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

hist whist. [tradução]


(E. E. Cummings / de Tulips & Chimneys, 1923)

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(2014)

* uma das chansons innocentes não tão inocentes do livro Tulips & Chimneys. alude ao universo do Halloween. há uma edição ilustrada por Deborah Kogan Ray; há um vídeo que traz o poema e suas ilustrações. algumas musicalizações do poema: 1  & 2
** sobre a tradução: "hist" e "whisp" como pedidos de silêncio. twinle-toe passa a noção de ter pés ágeis. "hob-a-nob" tem o sentido de uma saudação comemorativa por se estar em boa companhia, mas as soluções tradutórias "viva" e "salve" me pareceram muito solares para o texto, daí a opção pelo incentivo "vamos", que também reforça a necessidade de fuga, que permeia o poema. "whisk", que pode ter o sentido de "mover-se rapidademente", traduzi como "foge",  no imperativo; a segunda pessoa do singular volta a aparecer na tradução de "yer" como "te", pois assim me soou melhor.

domingo, 27 de abril de 2014

rising waters. [tradução]


(Langston Hughes / publicado no periódico Workers Monthly, 1925)

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(2014)


* o título original possibilita duas leituras: 1.águas crescentes / ascendentes ou 2. levantar / levantando águas. optei pela segunda leitura, já que a primeira traria uma repetição (crescente) ou introduziria um termo muito rebuscado (ascendente). além disso, a forma verbal (optei pelo verbo "erguer", mais econômico silabicamente) retrata melhor o tom da escritura (e da vida) de LH, uma escritura que convida à ação.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

chanson arabe. [tradução]


(Ezra Pound / poema esparso, 1918)

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(2014)


*a opção pelo verbo "estremecer" é uma tentativa de manter a ambiguidade original: estremecer por conta da presença ou da ausência da amada?

**a opção pela forma verbal "estremeci", em detrimento de "tenho estremecido", foi feita para se chegar a uma maior economia métrica.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

spa.

Comecei a considerar mais do que suficientes os sete dias da Criação quando baixou a terceira tarde da semana que tinha decidido passar no spa médico Pedra Alta. Eu pensando nisso, a quarta das seis refeições sendo servida, meio tomate cereja, me cai no chão, a poucos metros da minha mesa, Clóvis, obeso mórbido, duzentos e tantos quilos, logo vi que morto, mas não me choquei antes de chupar minha saliva pra sentir o último travo do tomatinho azedo: era de se esperar, chegar naquele tamanho! Eu, bastante sobrepeso, sem dúvida, mas longe da morbidez daquele pobre diabo, ou melhor, rico, pra pagar os quatro mil semanais da instituição. Achei mau, não sei se pelo fato em si, não sei se pelo mau humor vindo da redução de 3000 pra 300 calorias diárias, não sei se pelas horas que faltavam pra próxima refeição, a quinta, dois caules de agrião e um dedo de suco de laranja. Enquanto acudiam o morto, eu chupava gelo, coisa que os nutricionistas lá inventaram pra imitar sorvete, que água era liberada.
*
Apesar da internação espontânea, clima de cárcere. Os médicos:  vocês não são hóspedes, são doentes. O grande número de gordos, depressão, é claro, ainda que num barco familiar. Eu, ainda, dos menos pesados. Tinha uns que nem sei como podiam andar, ou estar vivos. No primeiro dia, revista geral. Não perdoavam nem potes de shampoo, que já tinham levado leite condensado dentro: apesar da vontade de perder peso, alguns já na angústia da dieta radical,  já na tentativa de alguns cartuchos. A regra, clara: engordou ao fim do período programado, expulsão; nunca mais voltava.
*
O lugar tinha tudo, esteira, bicicleta, academia, pistas de caminhada, até um bosque vizinho, bonito, pra explorar, mas a angústia de não saciar a gula dinamitava qualquer vontade de fazer qualquer outra coisa que não fosse esperar a próxima refeição. Nessa leseira, a ideia logo no segundo dia: escrever, jeito de gastar a ansiedade, o que ler não oferecia. Pra ser justo: não inventei, segui o exemplo de Térsio, cento e setenta quilos dados aos livros.  Pelos motivos do estômago, eu achava tudo um lixo depois de algumas horas, rasgava, começava de novo. Fiz isso até o último dia, tanto que esse relato é em retrospecto, agora que, fora, continuo com a necessidade de gastar a ansiedade de algum modo, pra não achar em poucas horas os dez quilos perdidos numa semana.
*
Pelo quarto dia, o corpo já outro, algumas reações pela redução drástica de calorias, já tinham avisado, às vezes miragens, alucinações, tudo relativo a comida: uma pedra no jardim, uma melancia; uma rosa, uma maçã-do-amor; um salgueiro, algodão doce; e por aí ia. Alguns veteranos que estavam lá há semanas, ou até mesmo meses, riam, já acostumados. Através deles descobri a máfia. Achavam ruim, mas não condenavam os funcionários que vendiam, em off, uma maçã a cinquenta reais ou um quadrado de chocolate a cem: denunciar seria o fim de um possível cartucho pra uma crise nervosa ou depressiva, coisa comum por ali.
*
O quinto dia amanheceu bem, mas virou o mais difícil, tendo sido aquele em que um tal Hélio, cento e sessenta e quatro quilos, sobrinho de político ou coisa que o valha, foi pesado ao fim do seu período de internação, que queria renovar, e deu que tinha engordado. Sem cerimônia, a expulsão, que, com o perdão do trocadilho, ele não engoliu. Eu, depois, nos corredores, de orelhada, os caras falando , ele comprava da máfia, todo dia, ao menos uma pêra ou uma lasca de chocolate.  No começo da tarde, logo depois da terceira refeição, uma folha de alface sem tempero, duas rodelas de cenoura crua e uns grãos de soja, soou, ao longe um barulho estranho à calmaria do lugar: hélices. Aos poucos, remexidas as copas das árvores, um helicóptero. Todos curiosos, eufóricos, alguns instantes sem pensar em comida. No que o sol ressurgiu de detrás de uma nuvem, algo laminado, em queda. Todos acompanhando. Logo, mais e mais outro, e outro. Em automático, aos objetos.  Eu mesmo, confesso, dei alguns passos. Gelei ao perceber os bombons. Trufas, na certa. Não fosse meu cérebro lento, teria chafurdado na grama, como os outros,  disputando os doces. Ouvi, algumas horas depois, ser coisa do Hélio, recalcado, àquela altura já longe e na certa se entupindo de tudo que não podia.
*

Naquela madrugada tive pesadelos com as trufas: voavam pra dentro da minha boca como insetos. No dia seguinte, véspera da minha saída, maior rigor possível , mantive os doces longe da cabeça.  De noite, inventaram um tal baile do Havaí, mas como ninguém podia beber, só deu uma tenda com um globo de balada, uma caixa de som tocando lounge e três gordos sentados, chupando gelo.

sábado, 4 de janeiro de 2014

the dead in melanesia. [tradução]


(Randall Jarrell / de Selected Poems, 1955)

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(2013 - 2014)