terça-feira, 28 de agosto de 2012

luís venegas: lição de poesia [ensaio]


A primeira vez em que me deparei com a poesia de Luís Venegas foi em 2008, na entrada de uma palestra sobre Poesia Concreta que seria realizada na Letras / USP. O autor em questão, com quem eu já tinha trocado algumas palavras de corredor, distribuía uma sulfite sanfonada com alguns poemas.  A princípio achei os textos herméticos, mas a maneira através da qual estavam construídos, isto é, o trabalho rítmico, me despertou empatia.
Mais tarde, adquiri um exemplar de “h á s a c i n a f o m e”, publicado em 2009 pelo selo [e]editorial. Ao lê-lo, comecei a compreender melhor a complexidade da poesia de Luís.  Trata-se de uma proposta que mescla registros eruditos e populares. Há poemas, por exemplo, em que a voz enunciadora começa formal, erudita, e, no verso ou na estrofe seguinte, migra para a informalidade. Há outros em que apesar do discurso parecer bem informal, vários intertextos eruditos fazem-se presentes. Estas misturas, no entanto, estão longe de ser novidade para quem se interessa pelo fazer poético. O que me pareceu novo, atrativo, com potencial enriquecedor, foi a modo através do qual Luís lança mão de recursos rítmicos, tais como a palavra-valise e a atomização vocabular, para desestabilizar o sentido que o poema teria numa leitura convencional, criando uma tensão (ou ginga) cômico-irônica. Vejamos um exemplo retirado de “Gosto de Fruta”, que é o título da sulfite sanfonada de 2008 :

aerona veche gabiru tastre mulam

É justamente deste poema-verso que vem o nome da antologia mais recente que Luís organizou (agora em 2012): “aeronave chega birutas tremulam”. Em 2008, tal título vinha embaralhado, simulando uma espécie de provérbio em língua estrangeira. Assim como este caso, grande parte dos poemas de Luís é composta por vocábulos fatiados e passíveis de ressignificação por parte do leitor; trata-se de uma leitura que flui e reflui, que requer atenção, que não se entrega de primeira.
A principal característica da poesia de Luís, no entanto, parece ser a modificação, o reaproveitamento, a reciclagem da matéria poética. Quem acompanha seus escritos há alguns anos, como é meu caso, percebe como ele vai construindo variações dos mesmos temas, por vezes fundindo antigos textos, gerando novidades, como acontece na nova antologia supracitada. Observemos, como exemplo, o andamento que teve um de seus textos, de 2008 à atualidade:



de vez em quando me surpreende a vida
o sentido de fundo do quintal
pagode com caninha embebida
e caco de telha escrita com sal

muito interior deste barato mato
todo torto por dentro moço e de óculos
pensando distintamente em você
teia inteira e aranha desconfiada

tenho reconhecido e desacordo
neblina densa por falta de rumo
esqueço a bagagem visto que abordo
enxergo o futuro
envergando e sumo

(2008)
sardinhada do zé

de vez em quando me surpreende a vida
o sentido de fundo do quintal
pagode com caninha embebida
e caco de telha escrita com sal

muito interior deste barato mato
todo torto por dentro moço e de óculos
pensando distintamente em você
teia inteira e aranha desconfiada

tenho reconhecido e desacorda
neblina densa por falta de rumo
esqueço a bagagem visto que aborda
enxergo o futuro envergando e sumo


(2009)

vez em quando a surpreendo
assoprando pro fundo do quintal
pagode com caninha embebida
e caco de telha escrita com sal

(2012)


 
Vemos que, com a passagem dos anos, além de terem ocorrido a introdução e a remoção do título, alguns versos foram modificados ou agrupados. Estas alterações culminaram no texto de 2012, que é fragmento de um poema maior, o que caracteriza considerável diferença em relação à proposta de 2008.
O conjunto destas hesitações, que também existem em outros textos, é indício de como Luís, sem pudores, vai apresentando ao leitor os sulcos que o tempo desenha em sua produção poética. Esse temperamento de ceramista que nunca deixa a argila secar, fazendo com que ela sempre assuma formas novas, me parece ser sua maior lição: priorizar o processo em detrimento do produto final, não se deixando obsecar pela ilusão do acabamento perfeito da obra de arte. Para aqueles que têm o fetiche pelo escrito-cristal (grupo no qual me incluo), tal ensinamento é relevante, já que sugere menor pudor no trato com textos próprios, o que não quer dizer flerte com a efusão lírica kardecista, mas sim maior liberdade de experimentalismo, que , sabemos, é o elemento-fonte da invenção.
Fica minha saudação ao Luís, juntamente com o poema final de “h á s a c i n a f o m e”, autorretrato poético e político:

n  o  pa sa re s   e  qui  valencià

a extrema direta
já podemos passear no espaço
o valor da viagem poderá ser pago a prazo?
mais uma direita
puta vagabundo inconveniente

sempre andarei com a palavra e faço
pra parecer papelvaretafiorabiola
colar e sentir isso sem dúvidas
de que no tênis tem barro

o o l h a r de um bípede pensando
em c O m O as mãos b a t r a l h a m