quarta-feira, 25 de setembro de 2013

entrevista: luís venegas.


Luís Venegas (São Paulo, 1963) é autor de há saci na fome (Ed. Annablume, 2009). Participou das antologias Fome de Formas (Ed. Demônio Negro, 2008) e M(ai)s - Poesia Sadomasoquista Brasileira (Ed. Annablume / Dix, 2008). Tem atuado em movimentos sociais desde os anos 70. Formou-se em Letras pela USP. Seu trabalho mais recente, aeronave chega birutas tremulam (2013), pode ser lido aqui.

1) Você afirma, em uma das suas páginas virtuais, que “faz questão de tematizar em sua produção artística as demandas de sua origem sócio-econômica, a classe que não controla os meios de produção, sempre enfatizando a importância de buscar o conhecimento formal da construção poética para que ela seja, assim, reconhecida como arte.” Algumas questões: O fato de uma produção oriunda da classe não dominante obter reconhecimento já contenta? Tal produção pode ir além do mero reconhecimento (e, portanto, do tornar-se produto)? Quais são as formas de engajamento possíveis para um escritor desta segunda década do século XXI?

Bem, ainda gosto dessa afirmação, mas ela é insatisfatória, evidentemente. Os temas da minha produção dependem, como os de todas, das experiências na vida, da memória que se tem delas, ou seja, é, definitivamente, um processo histórico-cultural, "presentificação" de muitos acontecimentos e dos sentimentos suscitados por eles. Portanto, a questão do reconhecimento artístico na afirmação citada relaciona-se mais à forma poética do que à produção desse ou daquele poeta, e isso implica, necessariamente, um engajamento político, por se tratar de uma questão coletiva relevante. Quanto ao monstruoso problema dessa produção poética "tornar-se produto", não há soluções mágicas para tais realidades sistêmicas, veja que até os que discursam abominando tal fenômeno cobram entradas em seus saraus, montam editoras para comercializar seus livros, então temos que encarar essa contradição, assumo, meu "biscoito fino" também deseja ser consumido, sem projetar pretensiosamente o "ego na massa".

2) Vemos, na sua poesia, um caráter experimental que perpassa principalmente os aspectos visual (no embaralhamento de letras e fracionamento de sílabas) e sonoro (na tentativa de engendramento de novas curvas prosódicas). A invenção ainda é um critério de valor para a arte? Por quê?

Sim, a invenção artística é uma tradição construída a partir da necessidade subjetiva de representar as coisas do mundo, os sentimentos contraditórios gerados a partir dessa experiência básica, a vida transcorrendo entre a aparição e a desaparição, instantes objetivamente intransferíveis. Seria essa a "função" da arte na cultura humana?

3) Uma das principais características formais da sua poesia parece ser a reformulação. Você retrabalha seus textos ao longo do tempo, reapresentando-os com alterações. Qual é o papel destas “variações” dentro de sua obra? Seriam uma forma de contornar a angústia da publicação, uma forma de retomar textos que não te satisfizeram após terem sido publicados?

O processo de criação que adotei, de muitas maneiras contingente, é a própria vivência da desconstrução do conceito de gênio, tarefa árdua que exige paciência, insubmissão e um "esquecimento" sobre ser o umbigo, o centro do mundo; lembrar isso é paradoxal, trabalho de gente, não de mitos. Em relação à "angústia da publicação", com a ampla difusão das novas tecnologias digitais que proporcionam a troca simultânea de informação em rede, hoje é praticamente nenhuma. Há problemas? Orra, uma quantidade enorme deles, mas a luta é permanente, não a satisfação. Meu time continua em campo, já dei pé na bunda de deuses e diabos, já tomei muitos durante meu meio século sob o sol. 

4) Visando levar sua obra e sua reflexão a um público mais vasto, você já participou de alguns saraus populares (isto é, não oficialescos). No entanto, sua poesia traz intertextos eruditos e formas pouco familiares às pessoas que não estão acostumadas com a chamada “alta cultura”. Como conciliar estas duas realidades? Como você avalia a recepção da sua obra por leitores / ouvintes da classe trabalhadora que, em muitos casos, têm um repertório cultural bem diferente daquele que algumas facetas importantes do seu trabalho exigem?

A ideia básica que "alinhava" o meu projeto artístico de "alta costura" é justamente estimular esses leitores/ouvintes a operarem essa política de apropriação dos bens culturais que pertencem a toda coletividade, porque a divisão estanque entre o erudito e o popular é uma farsa histórica sustentada por uma elite tacanha, normativa e reacionária, que se organiza permanentemente para sabotar a implantação de políticas públicas consistentes para a cultura, para a educação, para a saúde, para a mobilidade, com a intenção missionária descarada de manter seus privilégios. A recepção da minha poesia por esse público tem se mostrado positiva, as aproximações e distanciamentos que busco produzir com a minha polifonia poética tem efeitos, faz muitos sentidos, a "desalienação" esperada tem acontecido.

5) Seus textos trazem várias referências à cidade de São Paulo, principalmente à zona norte. Como você avalia a vida literária na capital paulista? As instituições culturais paulistanas dedicadas à literatura e à poesia têm feito um bom trabalho?

Memórias. Nasci no distrito de Tucuruvi, cresci e vivo até hoje nesse mundo suburbano. Minhas relações com a vida literária, principalmente acadêmica, foram e serão sempre conflituosas, é impossível apagar do meu discurso a "luta de classes", luto permanentemente para impedir que isso ocorra. Seria a propalada coerência ideológica? Viva a dialética. 
Quanto à pergunta a respeito do trabalho das instituições culturais paulistanas, do ponto de vista das "classes" que não controlam os meios de produção, a resposta, curta e grossa, é não.


* Dois poemas de Luís Venegas:

mOOn ta gem do eL cU  S  pIdo

sujo de galáxias em obras
o rosto do aluno no horizonte
roteiro quase muro e controverso
transblanco de poesia da tarde
corpo serial da lábia do anticrítico
palavra do verso provável pela pedra
a educação viva e concreta
é antes do ímpeto das letras
caderno corporal do reverso
pois com 20 brócolis do silêncio moli
ner V ho uai ss    mec   serpa    fari N a
livro de 40 poem(A)s   hab L án   buRtin
vinHoles   tabacaria antropofágica e tradução
vaia primeiro uma tempestade
a luta da arte sobre a teoria
depois a memória da intersemiótica
estrela dos últimos dias da assa cina
f o me de do s bra s   e pau péri a

(de há saci na fome, 2009)

*
ilusões de cama
a lagarta come, logo estica
como se nato fosse de costas
engata em saia de miranda

o inseto sábio fia sem mamata
arranha na banda
ejá gafa
você compra

seguidas trilhas
ficam esperando no tu curu
vi já faz tempo, chove
a maca em quebrada fina

(de aeronave chega birutas tremulam, 2013)

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

the tree of scarlet berries. [tradução]


(Amy Lowell / de Sword Blades and Poppy Seeds, 1914)

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(2013)