terça-feira, 16 de dezembro de 2014

my voice. [tradução]


(Oscar Wilde / de Poems, 1881)

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(2014 - 2016)

* Mais conhecido por sua obra em prosa e por seu teatro, o irlandês Oscar Wilde (1854 - 1900) também se dedicou à lida com o verso. A maior parte de sua produção poética está reunida em Poems, de 1881, e trata, entre outros assuntos, de impressões de viagem e revisitações a temas clássicos. Sua poesia está imbuída de temas relativos à visão "dândi" do mundo, aquela a qual dedicou sua vida de forma intensa, a ponto de ser mandado para a cadeia e para o trabalho forçado por cometer atos considerados "imorais" com vários rapazes. O poema aqui traduzido me parece representar bem a voragem de emoções, sofrimentos e superficialidades de uma experiência "dândi". 

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

the rosa sanguinea. [tradução]


(Henry Thoreau - 1850's)

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(2014)

* Henry Thoreau ficou famoso por seu ensaio A Desobediência Civil (1849) e por sua ligação com o  transcendentalismo americano, linha filosófica que teve como um dos maiores expoentes Ralph Waldo Emerson e que pregava, entre outras coisas, a valorização da intuição, da vida solitária, dos ambientes rurais e de uma educação não oficial. No entanto, também foi poeta. Os críticos de seu tempo não valorizaram seus textos poéticos, assim como ele próprio, que quase chegou a destruir seus manuscritos. Há, no entanto, momentos interessantes, como essa rosa sanguínea, aqui traduzida. O texto não tem data, mas a edição de 1965 de seus poemas, publicada pela The John Hopkins Press, informa que Walter Harding, estudioso que encontrou esse poema entre os manuscritos de Thoreau, crê, por conta da análise caligráfica, que o texto tenha sido escrito em meados da década de 1850.
** Procurei manter o ritmo regular, mas tive que mudar a posição das rimas para obter um efeito que estivesse à altura do original.

sábado, 16 de agosto de 2014

song. [tradução]


(Robert Creeley / de Windows, 1990)

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(2014)

* Tentei, na tradução, manter a leve atmosfera ambígua. Na primeira estrofe, por exemplo, deixou-se de lado o corpo esquecido ou algo que “há” nele? Na segunda estrofe, aquilo pelo que se morreria é o corpo ou algo que “há” nele? Há uma tradução deste poema no livro A Um , que apresenta traduções de textos de Creeley feitas por Régis Bonvicino. 

nature morte. [tradução]


(Robert Creeley / de Windows, 1990)

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(2014)

* Pensei, inicialmente, em traduzir o título francês para o inglês, para manter o potencial semântico de "still life", termo que se refere ao conceito de "natureza morta" mas que também indica, no poema, que a vida ainda (still) continua. Concluí, no entanto, que optar pelo termo inglês não seria uma solução tradutória, e decidi manter o termo francês, que qualquer leitor de língua portuguesa consegue compreender.

sexta-feira, 4 de julho de 2014

the air plant. [tradução]


(Hart Crane / de Key West: an Island Sheaf, 1932)

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(2014)

* Composto em 1927, este poema chegou a ser publicado no ano seguinte. Trata-se de um registro da força devastadora dos furacões tropicais. Em 1926, Crane esteve em Isla de Pinos (atual Isla de la Juventud), em Cuba, e presenciou um destes desastres naturais.
Há uma tradução deste poema  em  Poesia da Recusa, de Augusto de Campos. Em relação ao número de sílabas poéticas, Augusto varia entre 10 e 13. No meu caso, mantive os versos com 10 ou 12 sílabas poéticas. O primeiro desafio tradutório foi o terceiro verso – “thrust parching from a palm-bole hard by the cove –”, que, por economia silábica, teve sua ideia inicial – a de o tufo ser “empurrado” ou “impelido” de forma “abrasadora” pelo tronco – condensada no adjetivo “chamejado”.
Em relação à terceira estrofe, considerei a opção de Augusto por “acúleos” demasiadamente técnica, portanto traduzi “hack-saws” como “serrotes”.


A solução de Augusto para o final do poema é muito boa, mas optei por dar ênfase à palavra “hurricane”, mantendo-a como última palavra do poema, o que me levou a um caminho diferente do seguido em Poesia da Recusa. Vale reiterar que “Spanish Main” se refere à costa caribenha colonizada pela Espanha.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

japanese prints. [tradução]










(John Gould Fletcher / de Japanese Prints, 1918)

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(2014)

* Poeta ligado ao Imagismo, John Gould Fletcher buscou, nesses Japanese Prints, produzir em língua inglesa os chamados hokkus (transliteração da palavra japonesa, que em português adquiriu a grafia "haikai" e, após a queda do K na reforma ortográfica de 1943, "haicai"). Os haicais tradicionais adotam um esquema de três versos com 5 - 7 - 5 sílabas, respectivamente, e possuem ao menos uma palavra que aluda a uma estação do ano. No caso de Fletcher, a forma japonesa foi flexibilizada, assim como ocorreu no Brasil, com o trabalho de Paulo Leminski e Alice Ruiz. Na introdução ao livro, o autor diz que "não se pode escrever bons haicais em inglês. O que temos de seguir não é a forma, mas o espírito". Nessa tentativa, diz que os seus poemas "compartilham ao menos uma característica com a poesia japonesa, que é exaltar os assuntos mais triviais através da significação universal dos trabalhos artísticos".

** Sobre as traduções: eu e Lucas Zaparolli de Augustini traduzimos os 66 poemas do livro. Apresentamos, aqui, 8 traduções. Em "uma mulher bela", optamos por "anseio" em vez de "desejo", pois "ansiar" implica certa angústia, diferente do "desejo", que em alguns casos pode ser concretizado assim que surge, sem aflição. Já em "as poetas celestiais", o termo "close around" foi traduzido como "se fecham", opção que me pareceu mais próxima do sentido original, que é aproximadamente a ideia de "cercar". Em "as nuvens" há o phrasal verb "dragging up", que se refere a falar sobre algo desagradável que ocorreu no passado; optamos por "evocar", que mantém a ideia de trazer algo à tona.

*** há edição ilustrada oferecida pelo Projeto Gutenberg. 

quinta-feira, 8 de maio de 2014

hist whist. [tradução]


(E. E. Cummings / de Tulips & Chimneys, 1923)

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(2014)

* uma das chansons innocentes não tão inocentes do livro Tulips & Chimneys. alude ao universo do Halloween. há uma edição ilustrada por Deborah Kogan Ray; há um vídeo que traz o poema e suas ilustrações. algumas musicalizações do poema: 1  & 2
** sobre a tradução: "hist" e "whisp" como pedidos de silêncio. twinle-toe passa a noção de ter pés ágeis. "hob-a-nob" tem o sentido de uma saudação comemorativa por se estar em boa companhia, mas as soluções tradutórias "viva" e "salve" me pareceram muito solares para o texto, daí a opção pelo incentivo "vamos", que também reforça a necessidade de fuga, que permeia o poema. "whisk", que pode ter o sentido de "mover-se rapidademente", traduzi como "foge",  no imperativo; a segunda pessoa do singular volta a aparecer na tradução de "yer" como "te", pois assim me soou melhor.

domingo, 27 de abril de 2014

rising waters. [tradução]


(Langston Hughes / publicado no periódico Workers Monthly, 1925)

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(2014)


* o título original possibilita duas leituras: 1.águas crescentes / ascendentes ou 2. levantar / levantando águas. optei pela segunda leitura, já que a primeira traria uma repetição (crescente) ou introduziria um termo muito rebuscado (ascendente). além disso, a forma verbal (optei pelo verbo "erguer", mais econômico silabicamente) retrata melhor o tom da escritura (e da vida) de LH, uma escritura que convida à ação.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

chanson arabe. [tradução]


(Ezra Pound / poema esparso, 1918)

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(2014)


*a opção pelo verbo "estremecer" é uma tentativa de manter a ambiguidade original: estremecer por conta da presença ou da ausência da amada?

**a opção pela forma verbal "estremeci", em detrimento de "tenho estremecido", foi feita para se chegar a uma maior economia métrica.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

spa.

Comecei a considerar mais do que suficientes os sete dias da Criação quando baixou a terceira tarde da semana que tinha decidido passar no spa médico Pedra Alta. Eu pensando nisso, a quarta das seis refeições sendo servida, meio tomate cereja, me cai no chão, a poucos metros da minha mesa, Clóvis, obeso mórbido, duzentos e tantos quilos, logo vi que morto, mas não me choquei antes de chupar minha saliva pra sentir o último travo do tomatinho azedo: era de se esperar, chegar naquele tamanho! Eu, bastante sobrepeso, sem dúvida, mas longe da morbidez daquele pobre diabo, ou melhor, rico, pra pagar os quatro mil semanais da instituição. Achei mau, não sei se pelo fato em si, não sei se pelo mau humor vindo da redução de 3000 pra 300 calorias diárias, não sei se pelas horas que faltavam pra próxima refeição, a quinta, dois caules de agrião e um dedo de suco de laranja. Enquanto acudiam o morto, eu chupava gelo, coisa que os nutricionistas lá inventaram pra imitar sorvete, que água era liberada.
*
Apesar da internação espontânea, clima de cárcere. Os médicos:  vocês não são hóspedes, são doentes. O grande número de gordos, depressão, é claro, ainda que num barco familiar. Eu, ainda, dos menos pesados. Tinha uns que nem sei como podiam andar, ou estar vivos. No primeiro dia, revista geral. Não perdoavam nem potes de shampoo, que já tinham levado leite condensado dentro: apesar da vontade de perder peso, alguns já na angústia da dieta radical,  já na tentativa de alguns cartuchos. A regra, clara: engordou ao fim do período programado, expulsão; nunca mais voltava.
*
O lugar tinha tudo, esteira, bicicleta, academia, pistas de caminhada, até um bosque vizinho, bonito, pra explorar, mas a angústia de não saciar a gula dinamitava qualquer vontade de fazer qualquer outra coisa que não fosse esperar a próxima refeição. Nessa leseira, a ideia logo no segundo dia: escrever, jeito de gastar a ansiedade, o que ler não oferecia. Pra ser justo: não inventei, segui o exemplo de Térsio, cento e setenta quilos dados aos livros.  Pelos motivos do estômago, eu achava tudo um lixo depois de algumas horas, rasgava, começava de novo. Fiz isso até o último dia, tanto que esse relato é em retrospecto, agora que, fora, continuo com a necessidade de gastar a ansiedade de algum modo, pra não achar em poucas horas os dez quilos perdidos numa semana.
*
Pelo quarto dia, o corpo já outro, algumas reações pela redução drástica de calorias, já tinham avisado, às vezes miragens, alucinações, tudo relativo a comida: uma pedra no jardim, uma melancia; uma rosa, uma maçã-do-amor; um salgueiro, algodão doce; e por aí ia. Alguns veteranos que estavam lá há semanas, ou até mesmo meses, riam, já acostumados. Através deles descobri a máfia. Achavam ruim, mas não condenavam os funcionários que vendiam, em off, uma maçã a cinquenta reais ou um quadrado de chocolate a cem: denunciar seria o fim de um possível cartucho pra uma crise nervosa ou depressiva, coisa comum por ali.
*
O quinto dia amanheceu bem, mas virou o mais difícil, tendo sido aquele em que um tal Hélio, cento e sessenta e quatro quilos, sobrinho de político ou coisa que o valha, foi pesado ao fim do seu período de internação, que queria renovar, e deu que tinha engordado. Sem cerimônia, a expulsão, que, com o perdão do trocadilho, ele não engoliu. Eu, depois, nos corredores, de orelhada, os caras falando , ele comprava da máfia, todo dia, ao menos uma pêra ou uma lasca de chocolate.  No começo da tarde, logo depois da terceira refeição, uma folha de alface sem tempero, duas rodelas de cenoura crua e uns grãos de soja, soou, ao longe um barulho estranho à calmaria do lugar: hélices. Aos poucos, remexidas as copas das árvores, um helicóptero. Todos curiosos, eufóricos, alguns instantes sem pensar em comida. No que o sol ressurgiu de detrás de uma nuvem, algo laminado, em queda. Todos acompanhando. Logo, mais e mais outro, e outro. Em automático, aos objetos.  Eu mesmo, confesso, dei alguns passos. Gelei ao perceber os bombons. Trufas, na certa. Não fosse meu cérebro lento, teria chafurdado na grama, como os outros,  disputando os doces. Ouvi, algumas horas depois, ser coisa do Hélio, recalcado, àquela altura já longe e na certa se entupindo de tudo que não podia.
*

Naquela madrugada tive pesadelos com as trufas: voavam pra dentro da minha boca como insetos. No dia seguinte, véspera da minha saída, maior rigor possível , mantive os doces longe da cabeça.  De noite, inventaram um tal baile do Havaí, mas como ninguém podia beber, só deu uma tenda com um globo de balada, uma caixa de som tocando lounge e três gordos sentados, chupando gelo.

sábado, 4 de janeiro de 2014

the dead in melanesia. [tradução]


(Randall Jarrell / de Selected Poems, 1955)

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(2013 - 2014)