quinta-feira, 19 de novembro de 2015

in Just- [tradução]


(E.E. Cummings / de Tulips & Chimneys, 1923)

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(2014 - 2015)

* Uma das chansons innocentes não tão inocentes do livro Tulips & Chimneys. Aparentemente trata de uma cena de primavera: o vendedor de balões, a umidade, as crianças entusiasmadas. Há, no entanto, outro significado, criptografado, que sugere o baloeiro como alguém sexualizado, que começa ingênuo ("baloeirinho"), passa pela excentricidade e chega a ter "pés de bode", alusão a Pã, que, se não assobiava, tocava flauta e perseguia as ninfas em busca de diversão. Nesse contexto, a  "molhavilhosa" primavera parece ser um período de fertilidade e de maturação.
* Optei por traduzir "ballonman" como "baloeiro", pois me pareceu mais econômico que "vendedor de balões", além de (segundo o Houaiss) nomear não apenas quem mexe com balões, mas também um "indivíduo mentiroso", o que parece dar conta da faceta oculta da personagem em questão. Criei, também, duas palavras-valise que me pareceram se aproximar do efeito estético das originais: "elamelado" para "mud-luscious" e "molhavilhoso" para "puddle-wonderful". Em relação ao estribilho, mantive uma sequência de sons em "i", na tentativa de recriar a sonoridade do original "wee", que remete ao próprio som do assobio.
* Há uma gravação do poema feita pelo próprio autor.
* Alguns excertos críticos sobre o poema.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

"Outro", de Augusto de Campos.

Vem à mente durante a leitura de Outro, novo livro de poemas de Augusto de Campos, a persistência do autor em confeccionar textos que não sejam apenas "conteúdo", "assunto", "tema", mas sim formas poéticas que problematizem em suas organizações internas, em seus ritmos, os "assuntos" em questão.
A obra já apresenta uma problematização formal desde a capa (de autoria do próprio Augusto), que consiste em um fundo verde sobre o qual estão, em laranja-avermelhado, o nome do autor e uma espécie de ideograma com o nome do livro. De acordo com estudiosos da teoria das cores, o contraste existente entre cores complementares, como é o caso do verde e do vermelho, é o mais intenso, o que gera uma vibração. Donis A. Dondis, por exemplo, baseado em Munsell, explica que: "a cor complementar se situa no extremo oposto do círculo cromático. (...) ao serem justapostas, as complementares fazem com que cada uma delas chegue a uma intensidade máxima". [1] Esta justaposição causa um embaralhamento visual que, na obra de Augusto, já havia sido explorado em Poetamenos (1953), no poema aqui, do livro Não (2003), e na edição colorida dos Profilogramas (2011). Tal preocupação parece fazer parte de um projeto de aguçamento (ou educação, se lembrarmos de Haroldo de Campos) dos sentidos, de um lembrete de que a poesia é, também, um fenômeno sensorial. 
A obra de Augusto tem lidado, nesses quase 65 anos de existência, não apenas com a visão, mas também com a audição, como atesta seu trabalho de musicalizações com Cid Campos, com Adriana Calcanhoto e com compositores eruditos, e com o tato, como atestam os Poemóbiles (1974) e o poema em braille anticéu, de Despoesia (1994).
No caso de Outro, o sentido mais abordado é a visão. Em uma das intraduções presentes no livro, odi et amo (catulo), o autor mistura as letras das palavras "odeio" e "amo", mas as colore justamente com cores complementares; mais uma vez, o verde e o vermelho, o que causa uma tensão visual bastante significativa para o poema, que trata da linha tênue e conturbada entre ódio e amor. Em outros poemas, há o uso de tipos cifrados que exigem uma leitura atenta, que vá na contramão daquela usada para textos-patinação-no-gelo, contra os quais a obra de Augusto sempre se opôs, embora, em algumas situações, o autor tenha feito textos que não parecem exigir do leitor nada muito além do próprio deciframento dos códigos tipográficos.
No mais, Outro - que pode ser lido como o contrário de Intro -  é um livro imbuído do tom de despedida, espero que apenas performática, pois a encenação da morte e do silenciamento, remontando pelo menos aos poemas morituro (1994) e tour (1999), é outra recorrência na obra do autor. Que o poeta-tradutor-ensaísta continue nos brindando com sua lucidez! VIVA AUGUSTO!



desumano


cansaço dos metais


maiakóvski - brinde


tvgrama 4 erratum


odi et amo (catulo)





[1] DONDIS, Donis A. 1991. Sintaxe da Linguagem Visual. Martins Fontes. São Paulo. p.125.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"agora aqui ninguém precisa de si", de Arnaldo Antunes

Em seu novo livro, agora aqui ninguém precisa de si (Cia das Letras), Arnaldo Antunes mantém, no trato com as palavras, seu rigor característico, apresentando ao leitor textos bem lapidados, mas que não se limitam à precisão verbal, à transmissão de um raciocínio de forma econômica, enxuta, como faz certa diluição da poesia construtivista. Em seus melhores momentos, o novo trabalho consegue um dos feitos que considero mais interessantes em escritura poético-literária: fazer o leitor desconfiar da escrita, criando tensão entre o que é dito (enunciado) e a forma de dizer (enunciação). Um bom exemplo é o primeiro poema da obra, que enuncia: nada / com um vidro na frente / já é alguma coisa (...) mas / não é nadaA ambiguidade está entre aquilo apresentado pelas primeiras partes do poema não ser nada digno de atenção ou o conceito de não, de negatividade,  ser, de fato, uma inexistência. Essa problematização do conceito de nada, de esvaziamento ou esquecimento, sugerida pelo próprio título, é o que orienta o livro, como atestam vários momentos: sonha sumir / um dia / em uma sala / vazia (p.17) ;  queria estar a sós comigo mesmo / e ter a eternidade toda em torno / desfalecer no fogo desse forno / até me desfazer como um torresmo (p.47); não sei / se não / sei ou / se não / sei que / sei / mas / esque / cerei (p.121). Recorrentes, também, são as imagens dos elementos como o vento, a água e o ar, que trazem em si essa intangibilidade ou transitoriedade. 
O curioso é que apesar de enunciarem esse apagamento do eu, os textos se mantêm totalmente coerentes com o estilo da persona autoral de trabalhos anteriores de Arnaldo Antunes: poemas breves, tratamento direto do assunto, registro caligráfico e exploração de diferentes recursos tipográficos. Eis, então, o contraste entre o que é enunciado e a forma de enunciar, o que gera uma espécie de contradição performática que encena a angústia da impossibilidade de se livrar do eu, de escapar de si próprio. Há pelo menos um trecho explícito do livro que dá lastro a essa interpretação, pois fura o discurso do apagamento, quase como se fosse uma "recaída", uma volta ao império da individualidade: espelho : meu colostro (p.25). Machadianamente, o espelho, aqui, nutre o indivíduo ao mesmo tempo que retroalimenta as contradições da obra, que consegue, enfim, dar conta esteticamente do tema em questão: a inquietude de lidar consigo mesmo, traço da condição humana. 
Bom livro. Ficam três poemas.

nada
com um vidro na frente
já é alguma coisa

nada
com um vento batendo
já é alguma coisa

nada
com o tempo passando
já é alguma coisa

mas
não é nada

***

                              algures
                              vênus
                                                                                               
                                                                   alhures
                                                                   sírus

mas aqui

neste
depois

agulha                  alguma

fura

o céu
de CO²

***

um sopro
é o que dura, o que pode durar
esse ins
tanto tempo se passou e ag
hora dia minuto
um sopro,
um tsu
many days without y
ou
um soco
de ar no st
ar de uma est
rela no esp
aço ou no est
âmago ai
nda sem você
eu pass

domingo, 2 de agosto de 2015

"Escuta", de Eucanaã Ferraz

Depois de Livro Primeiro (1990), Martelo (1997), Desassombro (2002), Rua do Mundo (2004), Cinemateca (2008) e Sentimental (2012), o professor e escritor carioca Eucanaã Ferraz apresenta Escuta, seu novo livro publicado pela Cia das Letras. 
Como sugere o título, a obra assume uma perspectiva de "audição total". Tudo é considerado, como afirma o primeiro poema, que aparece em uma orelha-introdução: "Estão certas todas as canções banais letras convencionais / seus corações como são de praxe; (...) os sonetos mal alinhavados / toscos estão certos bem como as confissões íntimas / não lapidadas nem polidas (...) e se o verso é trivial é o mais sagaz quanto mais pueril / mais seguro quanto mais frouxo mais sólido quanto mais rasteiro (...)". Este tom inclusivo, recorrente em outras partes do livro, parece querer legitimar a banalidade, talvez por reconhecer que essas manifestações consideradas banais - o verso trivial, a canção ruim, a confissão derramada - são elementos que formam a sensibilidade de grande parte das pessoas, e negá-los seria negar as próprias pessoas.  Não parece possível saber, no entanto, se o propósito foi ou não esta legitimação, pois o que a escritura sugere é que Eucanaã, no seu abraço benevolente, apenas saúda as possibilidades que as tais "trivialidades" oferecem à criação poética, sem chegar a vivificar na forma de seus textos uma incorporação crítica dos clichês em questão, o que pode aproximá-lo da apologia àquilo que mais preza os clichês e as trivialidades, por serem facilmente assimiláveis e vendáveis: a indústria cultural.
Há, é verdade, alguns momentos em que o autor ensaia uma certa contradição, como por exemplo quando diz que é preciso ouvir confissões íntimas pois "dizem não vai dar certo", o que sugere que até o registro mais rasteiro pode trazer em si uma evidência do desconcerto do mundo, mas tal ideia é enunciada de forma pálida demais para ser considerada como uma contradição performática de caráter irônico.
Após essa introdução, há as três partes principais do livro: Ruim, que versa sobre morte, guerras e tédio; Alegria, uma abordagem do júbilo do amor; e Memórias Póstumas, a respeito da morte do amor.
Da seção Ruim, destaco o primeiro poema, que nos lembra A Name for All, de Hart Crane (traduzido aqui), pois apresenta um pensamento esteticamente bem construído (apesar de assumir um tom de excessiva liberdade descompromissada) a respeito da angústia do nome, esta "placa" que nos identifica: "Queria viver sem nome, / ser o que sou: eu-ninguém. / Me chamarem - ei, você! - / e eu me reconheceria, / perfeitamente não sendo / senão uma coisa livre / do que jamais prometi."
As outras duas partes alternam tentativas de cristalização de beleza e o uso de narratividades ou descrições desinteressantes, como "Ninguém quer casar com dona Baratinha. / Mas ela quer amor. / Ela quer amar", reforçando a suspeita de que Escuta, apesar de alguns momentos mais bem realizados, não consegue dar vida a formas que problematizem - de forma enriquecedora para o leitor - os assuntos abordados por seus textos.

ESTA PLACA

Como se eu mesmo dissesse,
como se eu próprio afirmasse
(começa com eu, meu nome)
que sou o que me nomeia:

lugar de não ser ainda,
solo tão só prometido,
projeto de geografia
para depois de amanhã.

Meu nome não sou agora,
moro no mundo futuro.
Meu pai me deu esse nome
sem que eu pudesse fazê-lo.

Mal posso escrevê-lo certo
nos documentos que o pedem.
Não existo no meu nome,
coisa que vive sem mim.

Ele se diz sendo eu,
este nome que me afirma,
mas o que nele me aponta
é também o que me acusa

de não ser o que ele diz.
Queria viver sem nome,
ser o que sou: eu-ninguém.
Me chamarem - ei, você! -

e eu me reconheceria,
perfeitamente não sendo
senão uma coisa livre
do que jamais prometi.

Mas à cara está colada
(certas tintas não se apagam)
esta placa, este engano
à beira de mim-estrada.

Se terra, sou terra a terra,
o agora sem vaticínios
de um norte em que mel e leite
jorrassem fáceis, sem dor.

Só existo em chão estreito,
nuns versos de amor e morte,
palavras ditas no escuro,
fósforo, poço, você.

Sou o exilado do nome
que carrego, vice-versa,
sem ter nunca visto a pátria
que minto quanto me digo

toda vez em que respondo:
como é que você se chama?
Vou aos livros, não encontro.
Pergunto. Não está no atlas.

E o infinito infinito.

A terra estará cumprida
quando estiver concluída.

Então, morarei ali,
sob ela, dentro dela,

sem ser eu, sem eu, não ser.

terça-feira, 14 de julho de 2015

"Desperdiçando Rima", de Karina Buhr

Baiana criada em Recife, Karina Buhr (1974) é uma  artista múltipla. Como atriz, trabalhou na montagem de Os Sertões, no Teatro Oficina. Como cantora e compositora, lançou Eu Menti Pra Você (2010) e Longe de Onde (2011), álbuns com canções aparentemente despretensiosas mas interessantes, pois furam o véu de mesmice, como Eu Menti Pra VocêNão Me Ame Tanto, que, sob musicalidade leve, debocham do amor "sério" e dos jorros sentimentalóides que persistem em muitas letras de canções e também na poesia contemporânea, estrada que Karina começou a trilhar com seu Desperdiçando Rima, publicado agora em 2015 pelo selo Fábrica 231.
O prefácio do livro afirma: "Nessas páginas que vão começar logo mais tem umas coisas diversas, coisas que, a princípio, não são músicas, mas depois de começado o samba, que elas virem o que quiserem, ou fiquem quietas aqui, esperando algum suspiro de alguém que passe por elas." Ao longo da obra, textos de diversos formatos e temas, caracterizando um exercício de liberdade escritural ao qual se somam desenhos da própria autora, quase todos de mulheres. Trata-se de uma prática de excesso, como o próprio nome sugere; excesso, esse, que, no abraço generoso do aceite de quase tudo que vem, acaba incorporando momentos pouco interessantes, como  Todo dia de manhã / um pouquinho de ilusão / um pouquinho de café, ou como os textos iniciais da obra, mais cronísticos, que, apesar de flertarem com experimentos "harmônicos" da poesia (uma palavra puxando a outra através da sonoridade, por exemplo) não se aprofundam na busca de um ritmo que proporcione ao leitor uma reflexão mais elaborada; acabam apenas por elencar acontecimentos, assuntos, sem problematizá-los na forma.
Por outro lado, Karina apresenta outros momentos textuais  mais relevantes, principalmente quando aborda questões sociais como a da violência policial, a da demarcação de terras indígenas ou a da necessidade de combate ao machismo. Em alguns casos, aproveita o clichê para criar uma ambiguidade que chega a nos afiar o pensamento, como no poema Você Me Feriu:  Na delegacia nada a registrar / nenhum arranhão, nenhuma roncha no corpo. / O arranhão e o soco foram dentro. Se por um lado o texto parece uma lamentação amorosa banal, por outro pode ser encarado como o impasse de uma mulher que sofreu assédio moral, algo difícil de se provar em uma possível acusação contra quem a agrediu, o que pode levá-la ao silêncio ou à interpretação de que tudo foi apenas um "desentendimento sentimental".
Apesar de irregular, Desperdiçando Rima traz um pouco mais das reflexões de Karina Buhr, artista que, por conta de suas canções afinadas com nosso tempo e de seu posicionamento político progressista, já merece respeito. Ficam alguns textos que creio merecerem leitura.


A marca que o caminho deixa, aquela que é devagar, de pedra e terra também,
de sangue e choro gritado, que deixa surdo de tão alto.
E a terra do índio espera que demarquem ela.
Mas antes era só ela.
"Terra do índio" era pleonasmo.




ESTADOS
ZUNIDOS
JAMAIS SERÃO VENCIDOS

*

(...)
Revive quem vive manso, quem vive de penso dança no prazo.
Cenário surreal de lombra de asfalto, que quando não vê natureza de
jeito pensa que é tudo alegria e beleza.

Realeza zero essa ganância bruta, que mesmo com luta avança,
pé na cara, chute no ovo,
Cabou-se a esperança.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Ademir Assunção, Cara e Coroa.

Em Junho, o poeta, prosador e letrista Ademir Assunção lançou dois livros pela Editora Patuá: Pig Brother e Até Nenhum Lugar. Dois projetos distintos, duas faces do mesmo criador. 
O primeiro, evidente alusão à mediocridade televisiva que tem imperado nesse começo de XXI, apresenta um mosaico de textos interindependentes organizados em sete círculos e carregados de imagens agudas, geralmente envolvendo a cidade de São Paulo, o que nos remete a Paranóia, de Roberto Piva (1963), e, mais indiretamente, a Paulicéia Desvairada (1922), de Mário de Andrade. Os cenários caóticos engendrados por Ademir, apesar de aparecerem num ritmo sintático linear que não acompanha a voragem das cenas (talvez numa emulação crítica da previsibilidade dessa nossa era da imagem),  fisgam o leitor  com sua força imagética, que vale a leitura, já que consiste em bons achados, como a lua é um comprimido de ecstasy se dissolvendo na neblina, caubóis do agronegócio massacram pederastas / & rastafáris / em safáris noturnos  ou  policiais armados bloqueiam as portas do reino do Céu, todos registros que nos ajudam a pensar criticamente o panorama dantesco desses nossos dias de violência e banalidade.
O segundo livro, por sua vez, retomando a economia verbal de LSD Nô (1994), apresenta haicais e quase-haicais. Parte dos poemas está imbuída do espírito Zen, que, entre outras coisas, postula a relevância de cada um  dos elementos do universo. Nesse sentido, temos um poeta de olhar apurado, que vê, por exemplo, o detalhe do  sol dissolvendo o orvalho nas asas da borboleta. Outra parte dos poemas busca um ar de informalidade, como é o caso de dia confuso / me falta / um parafuso ou de bem que você podia / pintar na sala / da minha tarde vazia; na minha opinião, textos menos interessantes, mas não desqualificam a obra, que, assim como a outra face da moeda, Pig Brother, merece ser lida, pois é um momento escritural de um artista que tem se dedicado com seriedade à criação literária.
A seguir, três poemas retirados dos livros.

A PORTA ENTRE OS MUROS ESTÁ LACRADA

As portas se fecham e não se abrem mais nesse mundo.
Seres da neblina uivam no topo das montanhas.
Raposas dançam em meio à névoa azulada.
Limo nos telhados, limo nas almas.

O Trapaceiro Divino levanta a taça.
O Dançarino Mascarado levanta a taça.
Mas nada abre a passagem entre os mundos.

Dois anjos sinistros seguram o crânio
de uma caveira de burro
nos portais da cidade.
Uma lésbica surtada arrebenta o taco de bilhar
na cabeça da própria irmã.
A velha hippie enrola um baseado no fundo do bar.

Ouvindo o crepitar da lenha na lareira,
Mister Morfina fuma o último cigarro
e vai dormir pensando num caldo verde.

A cúpula de madeira do céu começa a rachar.

(de Pig Brother)


manhã
fria
de outono

o sol
dissolve
o orvalho

nas asas
da borboleta



***


tanto caminhar
tantas luas tantos sóis
até nenhum lugar



(de Até Nenhum Lugar)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

african images. [tradução]


(Alice Walker / de Her Blue Body Everything We Know, 1991)

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(2015)

* A autora de The Color Purple, livro adaptado para o cinema por Steven Spielberg, Alice Walker também é poeta. Os poemetos aqui traduzidos fazem parte do livro Her Blue Body Everything We Know, que reúne textos que não tinham ingressado em seus volumes de poesia anteriores (Once - 1968 , Revolutionary Petunias and Other Poems - 1973 , Good Night, Willie Lee, I'll See You In the Morning - 1979 e Horses Make a Landscape Look More Beautiful - 1985)
** Esses textos fazem parte da seção inicial do livro, chamada African Images, Glimpses from a Tiger's Back, e são registros de uma viagem que a autora fez à África oriental em 1965. O alumbramento frente à Natureza aparece conjugado com a reflexão a respeito de questões culturais problemáticas, como a matança de elefantes e rinocerontes, e de problemas sociais, como as doenças que afligem as populações locais. Tudo através da síntese em quase-haicais que sugerem sem concluir, como bem exemplifica o poema do rinoceronte morto: quem são as indígenas? Terão matado o animal? Com que intuito?

  
pata de elefante usada para armazenar objetos

segunda-feira, 20 de abril de 2015

royal palm. [tradução]


(Hart Crane / de Key West: an Island Sheaf, 1932)

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(2014)

*Composto e publicado em 1927, Royal Palm, que optei por traduzir como palmeira imperial – forma que soa mais comum no português – se revela um símbolo de resistência às intempéries da natureza e, quem sabe, uma referência críptica ao potencial duradouro do trabalho poético.
Tentei, ao longo da tradução, manter uma constante de doze sílabas por verso, com exceção da terceira estrofe, que apresenta  extensão maior em dois dos versos, mas tenta compensar com a menor extensão de outros dois. 

domingo, 15 de fevereiro de 2015

epigram on parting with a kind host in the highlands. [tradução]


(Robert Burns / 1787)

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(2015)

* Poeta escocês, Robert Burns criou várias canções (algumas, composições próprias; outras, adições a temas folclóricos), entre elas Auld Lang Syne e Ae Fond Kiss, ainda cantadas e gravadas nos dias de hoje. Nesse breve epigrama, Burns trata da hospitalidade das Terras Altas, região no norte do país, repleta de montanhas e com pouca densidade demográfica. Trata-se da única área da Escócia em que ainda hoje se fala dialeto escocês.
** A tradução buscou, dentro do possível, manter o ritmo métrico original (sendo necessário levar em consideração os acentos secundários das palavras). O phrasal verb do título - part with - tem um sentido um pouco diferente da tradução dada; trata-se de expressar que algo foi "deixado de lado". Optei pelo verbo "despedir" por soar mais natural em português.



Terras Altas