sexta-feira, 21 de agosto de 2015

"agora aqui ninguém precisa de si", de Arnaldo Antunes

Em seu novo livro, agora aqui ninguém precisa de si (Cia das Letras), Arnaldo Antunes mantém, no trato com as palavras, seu rigor característico, apresentando ao leitor textos bem lapidados, mas que não se limitam à precisão verbal, à transmissão de um raciocínio de forma econômica, enxuta, como faz certa diluição da poesia construtivista. Em seus melhores momentos, o novo trabalho consegue um dos feitos que considero mais interessantes em escritura poético-literária: fazer o leitor desconfiar da escrita, criando tensão entre o que é dito (enunciado) e a forma de dizer (enunciação). Um bom exemplo é o primeiro poema da obra, que enuncia: nada / com um vidro na frente / já é alguma coisa (...) mas / não é nadaA ambiguidade está entre aquilo apresentado pelas primeiras partes do poema não ser nada digno de atenção ou o conceito de não, de negatividade,  ser, de fato, uma inexistência. Essa problematização do conceito de nada, de esvaziamento ou esquecimento, sugerida pelo próprio título, é o que orienta o livro, como atestam vários momentos: sonha sumir / um dia / em uma sala / vazia (p.17) ;  queria estar a sós comigo mesmo / e ter a eternidade toda em torno / desfalecer no fogo desse forno / até me desfazer como um torresmo (p.47); não sei / se não / sei ou / se não / sei que / sei / mas / esque / cerei (p.121). Recorrentes, também, são as imagens dos elementos como o vento, a água e o ar, que trazem em si essa intangibilidade ou transitoriedade. 
O curioso é que apesar de enunciarem esse apagamento do eu, os textos se mantêm totalmente coerentes com o estilo da persona autoral de trabalhos anteriores de Arnaldo Antunes: poemas breves, tratamento direto do assunto, registro caligráfico e exploração de diferentes recursos tipográficos. Eis, então, o contraste entre o que é enunciado e a forma de enunciar, o que gera uma espécie de contradição performática que encena a angústia da impossibilidade de se livrar do eu, de escapar de si próprio. Há pelo menos um trecho explícito do livro que dá lastro a essa interpretação, pois fura o discurso do apagamento, quase como se fosse uma "recaída", uma volta ao império da individualidade: espelho : meu colostro (p.25). Machadianamente, o espelho, aqui, nutre o indivíduo ao mesmo tempo que retroalimenta as contradições da obra, que consegue, enfim, dar conta esteticamente do tema em questão: a inquietude de lidar consigo mesmo, traço da condição humana. 
Bom livro. Ficam três poemas.

nada
com um vidro na frente
já é alguma coisa

nada
com um vento batendo
já é alguma coisa

nada
com o tempo passando
já é alguma coisa

mas
não é nada

***

                              algures
                              vênus
                                                                                               
                                                                   alhures
                                                                   sírus

mas aqui

neste
depois

agulha                  alguma

fura

o céu
de CO²

***

um sopro
é o que dura, o que pode durar
esse ins
tanto tempo se passou e ag
hora dia minuto
um sopro,
um tsu
many days without y
ou
um soco
de ar no st
ar de uma est
rela no esp
aço ou no est
âmago ai
nda sem você
eu pass

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