domingo, 2 de agosto de 2015

"Escuta", de Eucanaã Ferraz

Depois de Livro Primeiro (1990), Martelo (1997), Desassombro (2002), Rua do Mundo (2004), Cinemateca (2008) e Sentimental (2012), o professor e escritor carioca Eucanaã Ferraz apresenta Escuta, seu novo livro publicado pela Cia das Letras. 
Como sugere o título, a obra assume uma perspectiva de "audição total". Tudo é considerado, como afirma o primeiro poema, que aparece em uma orelha-introdução: "Estão certas todas as canções banais letras convencionais / seus corações como são de praxe; (...) os sonetos mal alinhavados / toscos estão certos bem como as confissões íntimas / não lapidadas nem polidas (...) e se o verso é trivial é o mais sagaz quanto mais pueril / mais seguro quanto mais frouxo mais sólido quanto mais rasteiro (...)". Este tom inclusivo, recorrente em outras partes do livro, parece querer legitimar a banalidade, talvez por reconhecer que essas manifestações consideradas banais - o verso trivial, a canção ruim, a confissão derramada - são elementos que formam a sensibilidade de grande parte das pessoas, e negá-los seria negar as próprias pessoas.  Não parece possível saber, no entanto, se o propósito foi ou não esta legitimação, pois o que a escritura sugere é que Eucanaã, no seu abraço benevolente, apenas saúda as possibilidades que as tais "trivialidades" oferecem à criação poética, sem chegar a vivificar na forma de seus textos uma incorporação crítica dos clichês em questão, o que pode aproximá-lo da apologia àquilo que mais preza os clichês e as trivialidades, por serem facilmente assimiláveis e vendáveis: a indústria cultural.
Há, é verdade, alguns momentos em que o autor ensaia uma certa contradição, como por exemplo quando diz que é preciso ouvir confissões íntimas pois "dizem não vai dar certo", o que sugere que até o registro mais rasteiro pode trazer em si uma evidência do desconcerto do mundo, mas tal ideia é enunciada de forma pálida demais para ser considerada como uma contradição performática de caráter irônico.
Após essa introdução, há as três partes principais do livro: Ruim, que versa sobre morte, guerras e tédio; Alegria, uma abordagem do júbilo do amor; e Memórias Póstumas, a respeito da morte do amor.
Da seção Ruim, destaco o primeiro poema, que nos lembra A Name for All, de Hart Crane (traduzido aqui), pois apresenta um pensamento esteticamente bem construído (apesar de assumir um tom de excessiva liberdade descompromissada) a respeito da angústia do nome, esta "placa" que nos identifica: "Queria viver sem nome, / ser o que sou: eu-ninguém. / Me chamarem - ei, você! - / e eu me reconheceria, / perfeitamente não sendo / senão uma coisa livre / do que jamais prometi."
As outras duas partes alternam tentativas de cristalização de beleza e o uso de narratividades ou descrições desinteressantes, como "Ninguém quer casar com dona Baratinha. / Mas ela quer amor. / Ela quer amar", reforçando a suspeita de que Escuta, apesar de alguns momentos mais bem realizados, não consegue dar vida a formas que problematizem - de forma enriquecedora para o leitor - os assuntos abordados por seus textos.

ESTA PLACA

Como se eu mesmo dissesse,
como se eu próprio afirmasse
(começa com eu, meu nome)
que sou o que me nomeia:

lugar de não ser ainda,
solo tão só prometido,
projeto de geografia
para depois de amanhã.

Meu nome não sou agora,
moro no mundo futuro.
Meu pai me deu esse nome
sem que eu pudesse fazê-lo.

Mal posso escrevê-lo certo
nos documentos que o pedem.
Não existo no meu nome,
coisa que vive sem mim.

Ele se diz sendo eu,
este nome que me afirma,
mas o que nele me aponta
é também o que me acusa

de não ser o que ele diz.
Queria viver sem nome,
ser o que sou: eu-ninguém.
Me chamarem - ei, você! -

e eu me reconheceria,
perfeitamente não sendo
senão uma coisa livre
do que jamais prometi.

Mas à cara está colada
(certas tintas não se apagam)
esta placa, este engano
à beira de mim-estrada.

Se terra, sou terra a terra,
o agora sem vaticínios
de um norte em que mel e leite
jorrassem fáceis, sem dor.

Só existo em chão estreito,
nuns versos de amor e morte,
palavras ditas no escuro,
fósforo, poço, você.

Sou o exilado do nome
que carrego, vice-versa,
sem ter nunca visto a pátria
que minto quanto me digo

toda vez em que respondo:
como é que você se chama?
Vou aos livros, não encontro.
Pergunto. Não está no atlas.

E o infinito infinito.

A terra estará cumprida
quando estiver concluída.

Então, morarei ali,
sob ela, dentro dela,

sem ser eu, sem eu, não ser.

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