terça-feira, 14 de julho de 2015

"Desperdiçando Rima", de Karina Buhr

Baiana criada em Recife, Karina Buhr (1974) é uma  artista múltipla. Como atriz, trabalhou na montagem de Os Sertões, no Teatro Oficina. Como cantora e compositora, lançou Eu Menti Pra Você (2010) e Longe de Onde (2011), álbuns com canções aparentemente despretensiosas mas interessantes, pois furam o véu de mesmice, como Eu Menti Pra VocêNão Me Ame Tanto, que, sob musicalidade leve, debocham do amor "sério" e dos jorros sentimentalóides que persistem em muitas letras de canções e também na poesia contemporânea, estrada que Karina começou a trilhar com seu Desperdiçando Rima, publicado agora em 2015 pelo selo Fábrica 231.
O prefácio do livro afirma: "Nessas páginas que vão começar logo mais tem umas coisas diversas, coisas que, a princípio, não são músicas, mas depois de começado o samba, que elas virem o que quiserem, ou fiquem quietas aqui, esperando algum suspiro de alguém que passe por elas." Ao longo da obra, textos de diversos formatos e temas, caracterizando um exercício de liberdade escritural ao qual se somam desenhos da própria autora, quase todos de mulheres. Trata-se de uma prática de excesso, como o próprio nome sugere; excesso, esse, que, no abraço generoso do aceite de quase tudo que vem, acaba incorporando momentos pouco interessantes, como  Todo dia de manhã / um pouquinho de ilusão / um pouquinho de café, ou como os textos iniciais da obra, mais cronísticos, que, apesar de flertarem com experimentos "harmônicos" da poesia (uma palavra puxando a outra através da sonoridade, por exemplo) não se aprofundam na busca de um ritmo que proporcione ao leitor uma reflexão mais elaborada; acabam apenas por elencar acontecimentos, assuntos, sem problematizá-los na forma.
Por outro lado, Karina apresenta outros momentos textuais  mais relevantes, principalmente quando aborda questões sociais como a da violência policial, a da demarcação de terras indígenas ou a da necessidade de combate ao machismo. Em alguns casos, aproveita o clichê para criar uma ambiguidade que chega a nos afiar o pensamento, como no poema Você Me Feriu:  Na delegacia nada a registrar / nenhum arranhão, nenhuma roncha no corpo. / O arranhão e o soco foram dentro. Se por um lado o texto parece uma lamentação amorosa banal, por outro pode ser encarado como o impasse de uma mulher que sofreu assédio moral, algo difícil de se provar em uma possível acusação contra quem a agrediu, o que pode levá-la ao silêncio ou à interpretação de que tudo foi apenas um "desentendimento sentimental".
Apesar de irregular, Desperdiçando Rima traz um pouco mais das reflexões de Karina Buhr, artista que, por conta de suas canções afinadas com nosso tempo e de seu posicionamento político progressista, já merece respeito. Ficam alguns textos que creio merecerem leitura.


A marca que o caminho deixa, aquela que é devagar, de pedra e terra também,
de sangue e choro gritado, que deixa surdo de tão alto.
E a terra do índio espera que demarquem ela.
Mas antes era só ela.
"Terra do índio" era pleonasmo.




ESTADOS
ZUNIDOS
JAMAIS SERÃO VENCIDOS

*

(...)
Revive quem vive manso, quem vive de penso dança no prazo.
Cenário surreal de lombra de asfalto, que quando não vê natureza de
jeito pensa que é tudo alegria e beleza.

Realeza zero essa ganância bruta, que mesmo com luta avança,
pé na cara, chute no ovo,
Cabou-se a esperança.

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Ademir Assunção, Cara e Coroa.

Em Junho, o poeta, prosador e letrista Ademir Assunção lançou dois livros pela Editora Patuá: Pig Brother e Até Nenhum Lugar. Dois projetos distintos, duas faces do mesmo criador. 
O primeiro, evidente alusão à mediocridade televisiva que tem imperado nesse começo de XXI, apresenta um mosaico de textos interindependentes organizados em sete círculos e carregados de imagens agudas, geralmente envolvendo a cidade de São Paulo, o que nos remete a Paranóia, de Roberto Piva (1963), e, mais indiretamente, a Paulicéia Desvairada (1922), de Mário de Andrade. Os cenários caóticos engendrados por Ademir, apesar de aparecerem num ritmo sintático linear que não acompanha a voragem das cenas (talvez numa emulação crítica da previsibilidade dessa nossa era da imagem),  fisgam o leitor  com sua força imagética, que vale a leitura, já que consiste em bons achados, como a lua é um comprimido de ecstasy se dissolvendo na neblina, caubóis do agronegócio massacram pederastas / & rastafáris / em safáris noturnos  ou  policiais armados bloqueiam as portas do reino do Céu, todos registros que nos ajudam a pensar criticamente o panorama dantesco desses nossos dias de violência e banalidade.
O segundo livro, por sua vez, retomando a economia verbal de LSD Nô (1994), apresenta haicais e quase-haicais. Parte dos poemas está imbuída do espírito Zen, que, entre outras coisas, postula a relevância de cada um  dos elementos do universo. Nesse sentido, temos um poeta de olhar apurado, que vê, por exemplo, o detalhe do  sol dissolvendo o orvalho nas asas da borboleta. Outra parte dos poemas busca um ar de informalidade, como é o caso de dia confuso / me falta / um parafuso ou de bem que você podia / pintar na sala / da minha tarde vazia; na minha opinião, textos menos interessantes, mas não desqualificam a obra, que, assim como a outra face da moeda, Pig Brother, merece ser lida, pois é um momento escritural de um artista que tem se dedicado com seriedade à criação literária.
A seguir, três poemas retirados dos livros.

A PORTA ENTRE OS MUROS ESTÁ LACRADA

As portas se fecham e não se abrem mais nesse mundo.
Seres da neblina uivam no topo das montanhas.
Raposas dançam em meio à névoa azulada.
Limo nos telhados, limo nas almas.

O Trapaceiro Divino levanta a taça.
O Dançarino Mascarado levanta a taça.
Mas nada abre a passagem entre os mundos.

Dois anjos sinistros seguram o crânio
de uma caveira de burro
nos portais da cidade.
Uma lésbica surtada arrebenta o taco de bilhar
na cabeça da própria irmã.
A velha hippie enrola um baseado no fundo do bar.

Ouvindo o crepitar da lenha na lareira,
Mister Morfina fuma o último cigarro
e vai dormir pensando num caldo verde.

A cúpula de madeira do céu começa a rachar.

(de Pig Brother)


manhã
fria
de outono

o sol
dissolve
o orvalho

nas asas
da borboleta



***


tanto caminhar
tantas luas tantos sóis
até nenhum lugar



(de Até Nenhum Lugar)