quinta-feira, 24 de setembro de 2015

"Outro", de Augusto de Campos.

Vem à mente durante a leitura de Outro, novo livro de poemas de Augusto de Campos, a persistência do autor em confeccionar textos que não sejam apenas "conteúdo", "assunto", "tema", mas sim formas poéticas que problematizem em suas organizações internas, em seus ritmos, os "assuntos" em questão.
A obra já apresenta uma problematização formal desde a capa (de autoria do próprio Augusto), que consiste em um fundo verde sobre o qual estão, em laranja-avermelhado, o nome do autor e uma espécie de ideograma com o nome do livro. De acordo com estudiosos da teoria das cores, o contraste existente entre cores complementares, como é o caso do verde e do vermelho, é o mais intenso, o que gera uma vibração. Donis A. Dondis, por exemplo, baseado em Munsell, explica que: "a cor complementar se situa no extremo oposto do círculo cromático. (...) ao serem justapostas, as complementares fazem com que cada uma delas chegue a uma intensidade máxima". [1] Esta justaposição causa um embaralhamento visual que, na obra de Augusto, já havia sido explorado em Poetamenos (1953), no poema aqui, do livro Não (2003), e na edição colorida dos Profilogramas (2011). Tal preocupação parece fazer parte de um projeto de aguçamento (ou educação, se lembrarmos de Haroldo de Campos) dos sentidos, de um lembrete de que a poesia é, também, um fenômeno sensorial. 
A obra de Augusto tem lidado, nesses quase 65 anos de existência, não apenas com a visão, mas também com a audição, como atesta seu trabalho de musicalizações com Cid Campos, com Adriana Calcanhoto e com compositores eruditos, e com o tato, como atestam os Poemóbiles (1974) e o poema em braille anticéu, de Despoesia (1994).
No caso de Outro, o sentido mais abordado é a visão. Em uma das intraduções presentes no livro, odi et amo (catulo), o autor mistura as letras das palavras "odeio" e "amo", mas as colore justamente com cores complementares; mais uma vez, o verde e o vermelho, o que causa uma tensão visual bastante significativa para o poema, que trata da linha tênue e conturbada entre ódio e amor. Em outros poemas, há o uso de tipos cifrados que exigem uma leitura atenta, que vá na contramão daquela usada para textos-patinação-no-gelo, contra os quais a obra de Augusto sempre se opôs, embora, em algumas situações, o autor tenha feito textos que não parecem exigir do leitor nada muito além do próprio deciframento dos códigos tipográficos.
No mais, Outro - que pode ser lido como o contrário de Intro -  é um livro imbuído do tom de despedida, espero que apenas performática, pois a encenação da morte e do silenciamento, remontando pelo menos aos poemas morituro (1994) e tour (1999), é outra recorrência na obra do autor. Que o poeta-tradutor-ensaísta continue nos brindando com sua lucidez! VIVA AUGUSTO!



desumano


cansaço dos metais


maiakóvski - brinde


tvgrama 4 erratum


odi et amo (catulo)





[1] DONDIS, Donis A. 1991. Sintaxe da Linguagem Visual. Martins Fontes. São Paulo. p.125.